domingo, 4 de abril de 2010

- Fantasmas, pequenos espíritos ou duendes? Não acredito em nada disso. E o senhor, sr. Foxx?

- Não, senhor.

- Parece acreditar. Com toda essa baboseira metafísica.

- Não quis dizer fantasmas e espíritos, professor.

- Nada é real, a não ser a experiência. O que pode ser tocado, saboreado ou provado cientificamente. Nunca substitua fatos qualitativos com propriedades similares por substâncias fixas. Sr. Snell, como esses são os últimos momentos antes das férias, agradeceria se ficasse acordado até tocar o sinal.

- Desculpe, professor. Notei que, para o senhor, a metafísica não merece ser levada a sério.

- Como afirmei claramente em meu último trabalho, os filósofos metafísicos são fracos demais para aceitar o mundo como é. Suas teorias sobre os 'mistérios da vida' nada mais são que projeções de sua própria inquietação interior. Afora este mundo, não existem realidades.

- Mas isso deixa muitas necessidades básicas do homem por satisfazer

- Sinto muito. Eu não criei o cosmos. Eu simplesmente o explico.

(Woody Allen. Sonhos eróticos de uma noite de verão)

sábado, 3 de abril de 2010

Exceção da regra

A cada vez que vejo casais felizes nas ruas, sinto que roubaram alguma coisa de mim. Qualquer coisa que eu podia estar vivendo, qualquer meio romance que seja. É difícil assumir isso, porque a primeira coisa que pensam provavelmente seria "infeliz" (isso porque, acho, eu pensaria assim). Também, eu nunca disse que era feliz, nem que queria ser. É bem por aí. E, no fim das contas, estamos bem assim: mal. E se estamos bem, é porque esse mal de que falo não provoca infelicidade. No máximo um desgosto temporário, umas horas amargas, às cinzas, no escuro. E quando não há escuro, uma dor nos olhos, como se eles queimassem com o sol. Como se aquela luz fosse uma alegria inoportuna, lembrando que o mundo é mais, muito mais do que tudo isso, e que, não, ninguém roubou nada de você - as nuvens estão apenas se rearrumando, num movimento eterno e inútil (e tantas coisas inúteis é que são belas...), as coisas estão sempre tomando seu devido lugar, para tomar seu devido lugar de novo e de novo e se há alguém roubando alguma coisa por aqui sou eu e sempre eu.

P.S.: completei um fragmento incompleto, dessa vez. Acho que não estou de todo preguiçoso.

Mais fragmentos incompletos

Incompletude eterna, acho que esse vai ser o novo nome desse blog. Caso é que eu não sei mais concluir as coisas que começo. Ou pelo menos acho que não estão completas. Vai ver até estão. Outras (como isso que eu vou colocar aqui) estão obviamente fragmentadas, repetitivas e a verdade é que daria muito trabalho para que ficassem do jeito que eu queria (como se eu soubesse exatamente que jeito é esse...) e creio que a preguiça tem me vencido. Não sei por quanto tempo isso vai durar e, também, o que importa? Quem se importa? Só eu, né? Então deixo mais fragmentos aí.

"Novos Baianos é um dia de muito sol na casa de Clara. A gente estava tirando fotos, eu e um amigo, não exatamente por diversão. Não interessa quem mais saía naquelas fotos, fazendo coisas que, para o meu trabalho parecia bom, mas para mim era ruim: eu só tinha olhos para Clara.

Ela



Dia desses eu estava relembrando um projeto antigo, que partiu do meu gosto por música pop, de escrever sobre a forma como algumas músicas ficam marcadas por certas situações, de um modo um pouco literário, livre e autobiográfico (eu só sei ser autobiográfico). É uma coisa muito diferente de escrever uma resenha, mas talvez seja até mais importante que uma resenha, caso se consiga demonstrar como aquelas músicas poderiam ser importantes para outros e fazê-los sentir algo. De certo modo pareço estar enganado, porque eu narro o que vivi e é presumível que ninguém vá ver a música da mesma forma que eu, então talvez tudo isso seja em vão - e as resenhas sirvam muito mais. Mas não estou muito interessado em servir, nesse caso. Muito menos em escrever alguma coisa como os MojoBooks, um conto para o álbum ou canção x, que seriam trilha sonora, no fim das contas. Talvez porque eu não saiba fazer isso e pense que, para fazê-lo, seria preciso ter uma escrita um pouco mais fluida e pode parecer óbvio, mas... musical? E não penso ter nada disso.

O certo é que tudo isso me faz lembrar que o Acabou Chorare, do Novos Baianos, é um dia de muito sol na casa de Clara, tirando fotografias, rindo e, no fim de tudo, cansando. Mas, acima de tudo, é uma paixão em tons vibrantes, instalando-se em meu coração como um amanhecer, inegável, irrefutável.

(...)

Quando relembro aqueles dias, sinto saudades do que senti. Saudades de rever aquele sol mover-se, dançar (a menina, enfim, dança - não para mim, mas dança)"