quarta-feira, 27 de maio de 2009

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Comum.

Garganta profunda: Eu só acredito na moça da limpeza. O resto para mim é esterco. Escreva uma história sobre mim. Pessoa* andava com o semblante vazio. Foi ao banco uma, duas vezes. Não havia dinheiro. Desistiu.

Eu: Eu acho que eu cansei de gente vazia e problemática...

GP: Entrou no elevador e se deparou com a pergunta de uma anônima:

Eu: Cansei de vazio, angústia, enfim...

GP: - Posso falar uma coisa? (Cara de interrogação.

Eu: Mas essa história está ótima, de qualquer modo.

GP: - Pode, claro. - Posso te dar um abraço?

Eu: (risos)

GP: - Por quê...? (Hesitação.)

Eu: Você devia postar isso no seu blog.

GP: - Você anda com uma carinha... - Haha, pode, claro. (Medo do mundo).

Eu: (risos) Eu gostei.

GP: Damos de cara com as situações mais inusitadas em elevadores com desconhecidos.

Eu: Você passou mesmo por isso?

GP: Sim. E sobre o que você estava dizendo... eu também me canso das pessoas problemáticas com grande facilidade. Preciso de pessoas coerentes, mas que não vejam o mundo tão cinza quanto eu.

Eu: É. Bem assim, mesmo.

GP: Mas são raras aquelas que valem a pena... que não efusivas ou cansativas... é raro dar de cara com alguém bom de se estar simplesmente... encontrar por acaso e parar pra conversar por alguns instantes e não sentir o tempo perdido. Tenho pouco disso. E geralmente é com gente que não dá para aprofundar pela falta de contato e tempo mesmo. Acaba sendo sempre um sorriso banal. Aliás, banal soa ruim.

Eu: Banal sempre soa ruim

GP: Mas é sempre algo gratuito. Não sei explicar.

Eu: E eu estava pensando em por que temos essa obsessão pelo incomum

GP: ...é um sorriso sem esforço, sincero. Antes eu tinha mais isso que você falou agora.

Eu: E é uma coisa que frustra. Há poucas pessoas que são mesmo incomuns.

GP: A maioria das pessoas incomuns... sei lá, são tão ordinárias quanto as outras. Às vezes, constroem a imagem do incomum para si. Para se vender, como um produto. Mas é algo que não tem conteúdo...

Eu: É, é por causa da obsessão...

GP: ...ou tem um conteúdo batido. Eu quero gente que esteja pensando em outras coisas, interessada em outras coisas.

Eu: Eu acho que sou banal. E acho que estou satisfeito com isto.

GP: Eu me sinto bem...

Eu: Acho.


P.S.: A identidade de "Garganta profunda" não foi revelada para preservar a fonte. (Haha, que piada ruim.)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Pequeno manual de como não se comportar

- Você não me ama... você se encantou comigo.

- É, talvez eu tenha confundido mesmo...

- É que amor... Essa palavra. A gente é tão novo. É uma palavra muito forte.

- Talvez porque a gente sempre espere que amar seja fazer das tripas coração. E constantemente somos bombardeados - nos filmes, na tevê ou nos livros - com o tipo de amor idealizado, a entrega plena e irracional, a deriva - nem que seja mental - nos braços do outro. Mas o amor - essa palavra - assim não é amor. É compulsão. Se quer irracionalidade, vá ao HCT. Não posso te dar isso...

- Isso... era para ser uma declaração?

- Não. É, talvez. Você quem diz...

- Não parece que você me quer muito, não... Ouço palavras e não sinto coisa alguma. Aliás, que tipo de amor é esse, que mais parece desprezo? Ou...

- É porque isso é perda de tempo. Não era para acontecer assim, sabe? Você sabe disso.

- Sei. E como é que tinha que ser?

- Nada dessa história de amor, essa palavra assim, atirada de páraquedas entre a gente. Sabe, tinha um programa de tevê que eu assistia quando pequeno, o nome era Passa ou Repassa. Era sempre um jogo entre duas equipes e uma das provas se chamava Batata Quente. Era mais ou menos assim: um membro de cada equipe segura um balão que vai enchendo aos poucos enquanto uma pergunta não é respondida corretamente. Se for respondida, o balão vai para o membro da outra equipe, que deve responder também uma pergunta e assim por diante, até que o balão estoura na mão de algum dos dois - e é esse quem perde. Pois se declarar é quase isso: é como jogar o sentimento que nem uma batata quente na mão da garota. E ela fica sem saber o que fazer - ou responder -, com aquela "batata quente" na mão, jogando de um lado para o outro, até que, quando ela estiver pra estourar, joga de novo em você.

- ...Façamos um purê, então.

- Não, não é uma batata, é só um balão. Digo, é só uma droga de sentimento. Te digo, então, como era para ser. É para ser assim: eu me interesso por você, você por mim e é isso, começa a haver uma espécie de envolvimento - sem que ninguém toque no nome desta droga de amor durante certo tempo. Até que, depois, "ele" aparece como se sempre estivesse ali. Entendeu?

- Ei. Eu não sou burra. Acontece que eu acho isso bonito. A pessoa dizer, assim...

- Tá. Mas é que, ok, isso simplesmente não funciona. Se funcionar, pode acreditar que é filme. E agora, se você não se importa, eu vou embora. Você pediu para falar comigo e acho que já foi o bastante. Adeus.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Não é epifania. Chega de "epifanias". É ridículo.

Para os escritores brasileiros contemporâneos, não existem pessoas normais, que não sofram de alguma angústia misteriosa, ou que tenham, simplesmente, uma vida boa. Essas pessoas não rendem boas histórias. Não. O que dá certo é introjetar na gente essa idéia de padecimento. É aquela coisa que eu costumo achar boa - mas que as vezes é tãõ chata - de identificação. Não, eu não quero ver meus sentimentos na tela. Não tô muito mais disposto a ver meu vazio refletido, ou qualquer falta de perspectiva. E não sei que moda é essa de que o nada é interessante ou quem inventou isso.

Engraçado é que, se eu paro e penso sobre o que escreveria (se eu, por acaso, me atrevesse a escrever), também não me imagino criando um personagem "normal". É estranho: normal passa a ser sinônimo de desinteressante ou simplesmente banal. Ninguém vê nada além no rapaz que toma cerveja com os amigos, mantêm um relacionamento estável com a namorada e tem um emprego comum - e é feliz com o emprego que tem. Aparentemente, não há conflito algum nesses fatos, não há uma história boa. Mas história. E é nisso que eu prefiro, hoje, acreditar que é mais interessante.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Eu acho que todo mundo devia ler isso. Hehe.

Já estamos entendendo errado as pessoas antes mesmo de encontrá-las, enquanto ainda estamos prevendo o que vai acontecer; entendemos errado enquanto estamos diante delas; e depois vamos para casa e contamos a alguém sobre o encontro, e de novo entendemos tudo errado. Uma vez que a mesma coisa acontece com os outros em relação a nós, tudo vira uma ilusão desnorteante, destituída de qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensões. E, com tudo isso, o que é que vamos fazer a respeito dessa questão profundamente significativa que são as outras pessoas, que se veem drenadas de toda a significação que julgamos ser a delas e adquirem, em vez disso, um significado burlesco, o que vamos fazer se estamos tão mal equipados para distinguir os movimentos interiores e os propósitos invisíveis uns dos outros? Será que todo o mundo devia trancar a porta de casa e ficar quieto, isolado, como fazem os escritores solitários, em uma cela a prova de som, invocando as pessoas por meio de palavras e depois sugerindo que essas pessoas feitas de palavras estão mais próximas das coisas reais do que as pessoas reais que deturpamos todos os dias com a nossa ignorância? Persiste o fato de que entender direito as pessoas não é uma coisa própria da vida, nem um pouco. Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estando errados. Talvez a melhor coisa fosse esquecer se estamos certos ou errados a respeito das pessoas e simplesmente ir vivendo do jeito que der. Mas se você é capaz de fazer isso... bem, boa sorte."


Pastoral americana. 1997. Philip Roth. Originalmente postado aqui.

sábado, 16 de maio de 2009

...estou vivendo.

Beber na intenção de não amar. Viver para não sofrer, para se perdoar e por aí sair, sem se preocupar em quando voltar. Sem saber que não há ninguém a sua espera, e que ninguém vai te ligar. Beber.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Minha, vida, uma, frase, cheia, de, vírgulas, mal, colocadas, (cujo, sujeito, é, sempre, separado, do, predicado).

sábado, 9 de maio de 2009

Movimentos para dias nublados:
casacos e guarda-chuvas
sincronizados.

(poema estilo Letícia, hehe.)