quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Nada me tira da cabeça que a vida é um filme clichê, geralmente sem diálogos tão interessantes, mas com tomadas longas e chatas... enfim, é um hibridismo terrível. Comédia hollywoodiana tosca misturada com cinema de arte, toques de drama, humor e, ah, os bons momentos. Daí que, nessa hora, seria melhor se o clichê se completasse e o final fosse feliz, mas é tudo tão incerto, é tudo tão "uma trama por trás da outra, por trás da outra, etc., etc." (a vida como um episódio de Heroes) e a vida puxando o tapete e tudo mudando e ah, o final fica sempre para a próxima sessão, talvez sem pipocas nem doces, talvez um fim insosso ou dramático.
Mas nada de "epifanias", por favor.

As vidas que terminam com os artigos literários de jornais e revistas, tão portentosas no primeiro plano e acabando numa cauda desfeita, lá pela página trinta e dois, entre anúncios de liquidação e tubos de dentifrício." (O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, pra variar...)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Daqui a pouco estou saindo e na verdade não sei se vou ou se fico.

Quando páro pra me lembrar de minha infância, da mais remota de todas, só consigo lembrar que um certo grupo brincava de Cavaleiros do Zodíaco e eu, de todos os garotos que ficavam de fora, era uma espécie de reserva. Na época eu não entendia e sequer ligava de ser, digamos, excluído. Afinal, percebam, os outros não eram reserva. E eu não era um deles porque, ora ora, os Cavaleiros eram em número limitado. Está bem, talvez fosse isso que eu pensasse para não pensar que. É.

Lembro-me de uma tarde brincando sozinho, dos dias nas casas dos tios, sem pais nem e irmão nem primos, uma solidão vigiada por empregados que me eram estranhos. Uma tarde remota em que todos eram felizes e corriam no parque e eu, do alto da casinha, olhava a lua. Uma viagem cujo salgadinho da Elma Chips fedia a vômito e meu pai reclamava na entrada do ferry boat. Minha tartaruga que se chamava Michelangelo, sei lá o motivo, um nome meio estranho para qualquer animal, especialmente uma tartaruga. Ah, Michelangelo, o único bicho que eu pude "criar", mesmo porque tartarugas não se criam, elas se perdem pela casa e só precisam de um lugar com um pouco de água, que nesse caso era a varanda lá de casa.

Lembro daquela casa, dos botões do som que eu gostava de mexer e mexia tanto que os quebrava. Uma vez quebrei uma vitrola e não houve conserto. Outra vez joguei o walkman de meu irmão no chão, mas meu pai consertou. Meu pai era o homem dos consertos. Acho que ainda é, mas quando a gente é criança tudo parece ilimitado. Não que eu o visse como qualquer tipo de herói, sabe como é, vocês sabem sim.

Lembro da primeira pessoa que encontrei uma dezena de gostos em comum e esse foi meu melhor amigo durante tantos anos que até hoje minha mãe diz que é, mesmo que, obviamente, as coisas mudem. Não sei por que, mas certa consciência de que tinha dificuldade de me relacionar data de quando eu tinha... 8 anos? E ainda assim, os meus amigos da época me diziam o contrário e eu sorria.

Alguns diziam que eu tinha a língua fora da boca e que tinha resposta pra tudo. E quando o tempo passou, tudo que eu queria era encontrar esse desprendimento completo, era me reencontrar na esquina da vida que dobrei e que logo após pus em obras, pra balanço, conserto, o que for. Acho que qualquer um passa por esse tipo de processo e... Ou não.

De sorte que eu não hei de reencontrar por completo aquela criança meio inocente meio sofrida, sem tantos problemas, que se dava bem com a solidão de menino de apartamento. Ainda bem que o mundo é grande e podemos ser tanta coisa, mesmo que nem tanta coisa assim. Posso ver aquela criança em cada doce, salgadinho que como, cada brinquedo de um primo mais jovem que me interesso em partilhar, cada vontade que a vida me traz de fazer qualquer coisa nova, mesmo que para muitos nem seja tão nova assim.

É por isso, é claro, que vivo de trás pra frente, que esse passado está comigo de uma forma diferente. Porque, graças, ninguém é o mesmo de tempos atrás, nem aquele meu amigo. Ainda bem que a gente muda e a lembrança inacreditavelmente fica, dói, faz sorrir.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Pobre do amor que só se alimenta de pensamentos"


Ossip, em O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

"(...) o que pensamos da felicidade? O que pensamos da derrota e da vitória?
Quando se fala hoje em dia num final feliz, as pessoas consideram-no uma simples concessão ao público ou uma estratégia comercial; consideram-no artificial. Mas por séculos os homens puderam acreditar sinceramente na felicidade e na vitória, embora percebessem a dignidade intrínseca da derrota. Por exemplo, quando se escrevia sobre o Velocino de Ouro (uma das velhas histórias da humanidade), leitores e ouvintes sabiam desde o início que o tesouro seria encontrado no final.
Bem, hoje em dia, se alguém empreende uma aventura, sabemos que terminará em fracasso. (...) Quando lemos O castelo de Franz Kafka, sabemos que o homem jamais ingressará no castelo. Ou seja, não podemos realmente acreditar em felicidade ou sucesso. E isso talvez seja uma das pobrezas de nosso tempo."


Jorge Luis Borges (Esse Ofício do Verso)

Pílulas

I

do avesso
me reviro inteiro
me faço de espelho
só pra não me ver

II

satisfação
devia ser só palavra
e não utopia