terça-feira, 21 de outubro de 2008

Relato do exílio eterno

Pedaços de papel branco. É assim que vejo o mundo agora, amontoado de letrinhas elencadas em milhares de papeizinhos brancos. "Que mundo, seria maravilhoso se não fossem certas pessoas...", já disse Woody Allen. Foram-se todos e estou só, Woody Allen. Você gostaria de estar assim? “Mundo, mundo, vasto mundo, se eu fosse Raimundo...” – é inútil citar Drummond. Não tenho mais o “sentimento do mundo”, já que nada me resta, senão eu, minha memória e esses papéis.

Tu não sabes, mas anteontem acabaste comigo, mundo maldito. Agora te escrevo, escrevo para esquecer-te, escrevo porque me deixaste a flutuar levemente, me deixaste aqui, único ser, com as letras e a eternidade. De que adiantam as palavras, as horas, o amor que fica, a dor de uma vida sem qualquer sentido...? O contraste da pele morena na minha, os abraços intermináveis, a beleza do corpo dela sobre o meu, a voz doce que me afaga... tudo isso se foi. De que me serve o tempo, a eternidade? Por que raios os papeizinhos aparecem das estrelas, algo belo e trágico, se não me deram asas para alcançá-las? Propago aqui o último legado da desgraça humana. Escrevo tentando desaparecer e alcançar o astro mais longínquo, a estrela Dalva, ah, o céu.


Obs.: Texto feito sob encomenda para o tema "E se o mundo acabasse anteontem?". Não gosto muito dele, não o acho sincero, mas fica o registro.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Música: "Little Person"

Desde que assisti Sinédoque, Nova Iorque (que resenhei nesse post no Costeletas do Elvis) procuro uma música que tocava durante o filme inteiro. No google, no ares, no orkut, em qualquer lugar que eu pudesse procurar, nunca encontrava muito além do nome da canção - Little Person - e autoria (parceria entre Charlie Kaufman (sim!) e Jon Brion - um cara que faz trilha de uns filmes muito bons, como Magnólia - cantada por Deanna Storey - e quem souber quem é ela me diz, ok?).

Finalmente pude escutar a música que não queria me deixar sair da cadeira no final do filme (fora a tristeza que o filme provoca, que dá uma certa sensação de "pára tudo que eu quero descer"). No facebook de divulgação do filme (por que no facebook?!) a música está lá pra ser escutada e reescutada. E de novo, de novo, de novo... Ouçam!

I'm just a little person
One person in sea of many little people
(...)

Somewhere maybe someday
Maybe somewhere far away
I'll find a second little person
Who will look at me and say:

"I know you
You're the one i've waited for
Let's have some fun"

Life is precious
Every minute
And more precious with you in it
So let's have some fun


Por que não consigo estranhar o motivo de ter me afeiçoado à música? A estrofe em negrito me lembra muito After Hours, de Velvet Underground:

Oh, someday I know someone will look into my eyes
And say "hello, you're my very special one"


After Hours é minha música de fé na vida (er, amorosa, digamos). Talvez a minha preferida do Velvet Underground. E, nesse assunto de "second little person", paramos por aqui, é melhor assim. (:

domingo, 19 de outubro de 2008

A volta dos (versinhos) que não foram

X

das estrelas
segui o caminho
por não tê-las
morri sozinho

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Nonsense

Acordo e olho para o céu. Seis horas da manhã. Mas o relógio aponta que não passa de cinco. Levanto, tomo banho. Onde estão todos? Sigo meu caminho só. Chove e eu estou pálido. Existe uma espécie de névoa na cidade e não há carros nas ruas. Ando no meio do asfalto e me sinto bêbado, sem uma gota de álcool. Troco os passos, caio. É muito cedo: as horas me aprisionam e me levam para trás. Sinto minha visão apagar.

É meio dia, mas o relógio agora me diz que são seis. Estou de volta ao ponto em que tudo estaria começando. Há algo em mim que quer correr dessas horas malditas, mas sou muito preguiçoso para isso. Lembro-me de quando estava no asfalto, mas não sei como cheguei aqui. Faz um calor dos infernos e sinto o ar seco, mal consigo respirar. Um espelho. Vejo meus olhos petrificados e abertos, mas o tempo escoa por eles majestoso. Está ficando mais cedo e minha pele começa a arder.

Pisco os olhos e me sinto desintegrar. "Acho que estou ficando velho". O sol está sumindo no horizonte. Me vejo apagar aos poucos e não sinto mais dor nenhuma. Talvez seja tarde demais para ser tão cedo. Os bebês engatinham pela rua, contentes. Cada um tem um mundo nas mãos e eu não. Não posso arrancar isso deles, mal consigo me mover. Percebo que estão se arrastando para trás. Algo acontece, como uma espécie de fita cassete retrocedendo, mas eu, o bolor do vídeo, ali permaneço. Olho o relógio e são cinco horas, novamente. Hora de sonhar que tenho o mundo em minhas mãos, mesmo sem ser bebê.
Hora de ir.

sábado, 11 de outubro de 2008

Existe o carma, existe a dor e a agonia, a ansiedade é a poesia, de certa forma, da vida. A calma não me comove, a chuva é boa só se molha, então chove logo de vez que eu dou um jeito aqui e saio para te encontrar. Você que conhece a destreza das tempestades e a eternidade dos sonhos... me ensina?

terça-feira, 7 de outubro de 2008



"À força de sentirmos piedade dos heróis de romances, acabamos sentindo excessiva piedade de nós mesmos"

Borges

Nem eu aguento mais meus versinhos.

VIII

Haja paciência
para quem critica
o racionalismo alheio

Não seria isso feio?
puro raciocínio?

Assumamos, pois,
nosso lugar
nesse latifúndio
Racionalistas somos todos
até o túmulo.


IX

ter sono
ver sonho
versinho
verdinho


(Acho que são os últimos, aleluia.)

VII

Passo a vida
tentando ter pena daqueles
que não conhecem a entrega

Mas fico sem saída
A cada vez que vejo neles
o que a vida me reserva

domingo, 5 de outubro de 2008

V

censurado.


VI

The Clash de manhã
para acordar
Caetano meio-dia
para relaxar
E acabo de inventar:
pra fazer morrer a noite
Half a person, The Smiths

Merda.
Entrei pra adolescência nesse ano.

sábado, 4 de outubro de 2008

IV

Já sei
dessa vez me acostumo:
Todo depressivo
tem um quê de imaturo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

III

O problema da minha vida
é não ter nascido num filme antigo
Tudo estaria resolvido:

A mocinha me olharia de repente
Me beijaria ardente
(E não mais que de repente)
eu seria feliz

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

I

Quanto mais estudo
mais tenho certeza:

Jornalismo não põe mesa.


II

Sempre que a vida me perturbava
Eu dizia:
Tá chovendo
ou é impressão minha?