domingo, 31 de agosto de 2008

As escadas do sem-fim.

Descia as escadas, tentando contar os degraus, mas sempre perdia as contas. A escada levava à terra - os céus que lhe mandaram por ali. Desajeitado, levava a vida no compasso desritmado, escondia-se de si e dos outros. Pobre diabo, disse a horrenda quimera que lhe maltratava. Ainda serei pleno, respondeu-lhe olhando a claridade ofuscante que vinha de cima. Sentia a mão da quimera a pressionar-lhe as costas, mas sentiu-se leve, leve, por um momento. Pensou em toda a sua vida, e achou por bem mandar a quimera ao inferno, pois ah, sim, chegaria de novo ao céu. No ímpeto da liberdade, pisou em falso e rolou escada abaixo. Pois a quimera, ora, era ele mesmo.

Obs.: isso ficou uma porcaria. A idéia está aí diluída. Quer dizer, que idéia? Se eu sempre escrevo assim, sem saber de onde vim nem para onde vou?

(...)
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?"


Paulo Leminski.
Grato a uma amiga pela indicação. Alguns poeminhas parecem tolos, tolos, mas sabem falar ao coração.

Eu tento olhar para você, mas só vejo poesia. Minto. Vejo doçura nos teus risos, que hoje só posso imaginar, menina. É isso. Uma doce criança a me acompanhar pelos meus anos tristes, a me alegrar.

Eu vejo que você é doce por completo. Nessa sua voz, minha lembrança nítida, parece cantar a vida. A vida mais que distraída, alegre em sua profusão de cores e graça, a vida que não é diferente de você.

Então, quando não mais te vejo, sei que vais além, ah sim, vais além de mim. Você: tentativa constante de ser feliz, forte em seu vôo leve e por isso rasante, que não esquece quem por qualquer infortúnio não se lembra qual o sentido da vida. Você: sonho sem fim, meu porto a cada temporal, desde os tempos mais difíceis, porque não se prende à materialidade angustiante das horas, e dissipa o peso dos lençóis cinzentos do céu.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Tolice noturna.

É estranho o modo como nos encontramos. Como se o mar e o vento soprasse ao nosso favor naquele fim de tarde, e o Sol me chamasse porque sabia que algo de muito importante estava a acontecer. Eu sei, meu bem, você não crê nessas minhas palavras. Eu sei, você não é meu espelho, e, pela primeira vez posso dizer que gosto de alguém pelo que é e não de um simulacro.

Gosto da materialidade dos teus toques e sutilezas, do amor que você põe em cada gesto. Sei que você dirá que eu sou brega. Sei, aliás, que poesia, para você, é somente solidão. Mas eu preciso compartilhar, o poema, para mim, é a tentativa de estender-me além, de atingir a barreira que separa de mim o mundo. A fronteira entre o pensar, entre eu e você.

Eu sei, meu bem, que estou juntando os cacos da minha poesia velha e gasta por você. E posso dizer tudo que quero lhe dizer, todo o sentimento que é mais pesado que eu e quer sair: é líquido, mas o meu corpo o congela. E então você vem, e acalenta. Você, fullgás. Você, ar suspenso, tentativa de alcançar o céu como balão e sumir por aí, pelos ares que nos circundam e fazem tudo aquilo que é nós dois.


Texto inspiração: A solidão do poema, Heron Moura.

sábado, 9 de agosto de 2008

Propaganda é a alma do negócio?


O saudoso (para mim) blog de cultura pop Costeletas do Elvis está de volta. Abandonei o tal Síndrome de Alt-tab, já que gosto mais do outro. E vejam só, voltamos com visual novo, tão bonito. Tá bom, parei de elogiar o que faço. Vejam e pronto.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Mais uma citação...

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco."

Memória de minhas putas tristes, Gabriel García Marquéz.

- Livro menor do escritor, mas bastante fluido, rápido. Discordo sobre a parte do zodíaco, mas talvez o amor não seja mesmo um estado da alma. E há um pouco de mim na citação, mas não convém dizer exatamente o quê. Acho que eu não saberia dizer.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Descontinuidade dos desromances

Tão felizes poderíamos,
menina, bailar à rua
E eu a velar-te nua
em teu olhar sobranceiro

Mas ficas a vagar perdida
Passas pela vida triste
Com tua solidão em riste
Negas-me a lua, o coração

E tu me olhas
De longe me olhas
e sei que me odeias

Não odeia o que eu odeio
em mim, odeias o mistério
de ver-te em mim

E assim verto
O sofrer calado no peito
Nessas palavras inúteis...

Ah! Minha sopa de letrinhas.
Nunca sou por inteiro
Sempre falta um pedaço
Acho que sou a falta