quinta-feira, 22 de maio de 2008

Coisas assim não são feitas por um qualquer

Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água. (O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar).

quarta-feira, 14 de maio de 2008

E agora, José?

Só agora consigo escrever-te, Annie. Já se passou mais de um mês desde nossa última correspondência. Desde lá, pareço ter parado no tempo.

O que é o tempo, Annie? Agora que estás desfigurada, de que me serve o tempo? Quando colarei os teus pedaços, de que forma conseguirei tornar-te real?

Rosa-menina, rosa-menina, rosa-menina. És doce, doce, doce... Transfiguraste tuas formas, bem como previ, mas a doçura continua em teu olhar. Seus olhos permanecem vívidos e incisivos, a queimar-me a boca. Apareces e somes, Annie Hall, quando queres, esqueces que existo. Dói-me o corpo a situação em que estamos... Dói-me a alma, que não é a alma que tu pensas, é minha essência. Eis aqui o meu eu despedaçado, também desfigurado. É como a metáfora que usei antes: as metades de laranjas não se encaixam.

Eu imagino agora o que pensas de mim agora, Rosa. E penso, repenso...

"E agora, José?

Você que é sem nome, que faz versos - em vão -, que ama demasiadamente. Está sem mulher, a noite é desestrelada e o dia não veio - nem virá. Sua utopia é maldita, vai ser gauche na vida, vai, sim... José, ê José. Não se parece com o José de Gilberto Gil. Você perdeu Juliana - Annie - em outras circunstâncias, não matou ninguém, não é bravo e o sorvete nunca será vermelho - ainda bem! Mas bem que o outro José, o José de Drummond, ah, sim, você é assim. Você veio antes do tempo, sem saber ser nem aprender. Você não é nada nessa sua vida. Sua doce palavra, seu desejo de vida... Ah, aprenda sua hora, rapaz. Se tens a chave, espere a porta. E a porta não vem... E agora José? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse... Mas você não morre. Acorde, José. Desista. José para onde? Gauche-gauche-gauche (ad infinitum)." - inspirado/copiado de Drummond e, muito menos, em Gilberto Gil.

José Dias tenta se reeleger à presidência do sindicato das metades de laranja desencontradas, das tampas de panela (...). Enquanto isso, José escreve, escreve para ser Zé.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Recesso?

Nem falei nada antes, mas não consigo escrever nada do estilo que vigora nesse blog desde primeiro de abril. Não sei se é a "inspiração" que se foi, ou se é muita ocupação na minha mente, ou se eu ando estudando demais e isso obstrui a mente para outras coisas. Vai ver é um pouco de tudo que elenquei.

Enfim, fico no aguardo de uma idéia boa para postar, que não seja copiar o que eu postei/fiz há muito tempo. Enquanto isso, estou postando no Síndrome de Alt-tab, em razão de uma matéria de Faculdade - blog vale nota, acredita?

O Síndrome de Alt-tab é destinado à postagem de "notícias" da música alternativa. O que é ridículo, primeiro porque não é agradável reproduzir as notícias de portais especializados em música/cultura e segundo porque o conceito de "alternativo" é deveras abstrato e relativo (a depender do conceito, até metal é alternativo). Enfim, mesmo com esses percalços, vou levando o trabalho adiante. Acompanhe, caso queira (Ih, é o terceiro link... "estou implorando por visitas?" ....).

sábado, 3 de maio de 2008

Reminiscências

Lendo e tentando acreditar no que escrevo.

"(...) Não me lembro exatamente de quando me dei conta de que sei amar. As vezes desconfio de que o amor é somente uma invenção, mas quando sinto, vejo que essa desconfiança é simplesmente idiota." (janeiro, 2007)

"(...) Escrevo clichês como quem diz grandes novidades. Mas procuro ser visceral, coerente e verdadeiro, embora isso nem se efetue muito.
O fio das horas se esvai. O tempo é fugaz.
Mas a música é meu maior abrigo. Depois dos intermináveis abraços..." (abril, 2007)

"(...) A mulher que Pedro idealizava (...) era como uma canção louca, afinando e desafinando, mudando de tom e de ritmo bruscamente, afigurando-se e desaparecendo. Ao passo que conhecia Luísa, ela o conquistava, tornando palpável um ideal abstrato, mas escorria de seus braços como água. (...) Era como se fosse destinado a amá-la, porém não acreditava em destino. Gostava de encarar a vida como fruto de felizes e infelizes acasos. (...) Do futuro, nada sabia. Gostava da idéia de haver um amplo horizonte de possibilidades, mas odiava o caráter brusco e mutável dos acontecimentos." (março, 2008)

"(...) [tudo] termina sem mais nem menos para uma continuação frustrante. (...) a vida de Pedro (...) drasticamente muda para pior e tudo tende ao caos. Como uma entropia maldita, maldita física, maldita vida." (..., 2008)

"Odio el amor", Rubin

Odio el amor
La primavera y el sol
La luna y todo lo demás

Odio el calor
Y las canciones de Paul
Ir de la mano junto al mar

Pero si estás
No tengo tiempo de más
Para perder en soledad

No es tan difícil dejarme llevar
Pero me pierdo si no estás

Odio el ayer
Y lo que vino después
Que no me deja respirar

Odio a mis ex
Y a cada amor de mis ex
Ir a tu casa y esperar

Pero si estás
Todo parece cambiar
Y el viento deja de soplar.
No es tan difícil dejarme llevar
Pero me pierdo si no estás.

Ella pasó, vino y se fue
¿qué debo hacer
Para que quiera volver?

Pero si estás
No tengo tiempo de más

Para perder en soledad
No es tan difícil dejarme llevar
Pero me pierdo si no estás
(siempre) me pierdo si no estás"


"Roubado" daqui. Ouça (link também roubado).