sexta-feira, 25 de abril de 2008

Chuva metafórica

Chove lá fora. Aqui dentro também. É tosco fazer isso, mas sempre vou associar essa chuva a uma tristeza velada e inútil. Nessas horas eu ponho uma música triste e sou essa música. Nessas horas o meu eu pede por uma estabilização, pede que pare de chover, mas tudo chove mais ainda, o céu descarrega sua fúria em ventos prodigiosos e eu fico aturdido.

Não sei de onde vem tudo isso e como, justo quando tudo começa a ir mal para mim, o tempo fecha juntamente comigo. O que era um horizonte de possibilidades e um céu azul deságua em dor e desalento. Deveria ter adivinhado que aquele azul não combina comigo, se eu vivo a noite sem lua, com apenas uma estrela, só uma.

Existir dessa forma dói, mas é uma dorzinha que, em pouco tempo, torna-se agradável. Você não consegue viver sem ela. Você simplesmente acaba não se enganando tanto com a vida.

(Texto escrito em 01/04/2008. Não chove lá fora, não mais. Aqui dentro já não sei)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Do alter ego José Dias

Seria uma impressão passageira ou palavras como "amor" realmente não fazem parte do vocabulário da minha vida?

Eu não me refiro ao tipo desgraçado de amor, aquele que permanece na mente e no corpo como um peso, soando como uma música mal tocada, uma voz desafinada. Falo do amor concretizado, vivido lado a lado.

"Inadequação. I-n-a-d-e-q-u-a-ç-ã-o". Se eu tivesse treze anos, pensaria nisso. É estranho, mas me sinto um pouco como naquela época. Sua recusa sutil se deve a alguma coisa... Então me pergunto: por que você não pode me amar? Existe algum problema comigo?

Sou como você, Annie, que nunca namorou quem queria. E só se relacionou com pessoas extremamente desinteressantes. Ah, sim, eu nem me apresentei. Desculpe. Meu nome é José e ninguém me chama de Zé. Desde pequeno eu nunca tive cara de Zé, já me disseram isso. Parece que sou sempre sério demais.

Na minha infância, todos tinham apelidos inusitados - Lá, Fifa, Dia, Bu e por aí vai. Nunca tive direito a um. É estúpido. Ana, não tente me julgar. Sei que falo besteiras. Se mando essa carta a você, é porque preciso disso. Preciso de alguém com quem possa desaguar... Formar uma poça junto a alguém, sabe? Sempre pensei muito nisso... nunca foi possível. A tal água não sai de mim, nem mesmo por lágrimas. Não choro desde os 10 anos, pois meu choro nunca comoveu ninguém. Nem irá.

Você é a garota mais interessante que já vi na vida. Pequenina, boca vermelha, olhos brilhantes - encantadora. Não, brinco. Eu sei que você não é assim. Você não tem forma. Você é um espelho disforme, a banda perdida da laranja que nunca existiu. A cada vez que tento te alcançar vejo como sou idiota. Afinal, não amo você. Amo a idéia que eu tenho de você, que nada tem a ver com você. O que mais assusta, enfim, é que você saiba disso.

Banda de laranja. Parece que a "grande faca do destino" fez um trabalho tão ruim... como pôde estraçalhar as metades de tal forma que nunca se encaixam? Quando se montam, finalmente, quando parecem ter curado todas as cicatrizes existenciais, a outra metade está perdida, em pedaços pequenos, corredia. E então a metade se desmonta. Eis a vida... nunca poderemos nos encontrar, querida Annie.

Mas mesmo que você tranfigure suas formas, que de laranja passe a ser limão, azeda e amarga, será sempre você que estará nos meus sonhos. Para mim, você será sempre adocicada, principalmente porque nunca provei você. Quem me dera fosses realmente amarga. Assim nos encaixaríamos. Eu te arrancaria desse pedestal que criei para você. Eu aprenderia a tocar sua melodia bela, eu... seria Zé e não José, e não esse rapaz sério e melancólico, cólico, cólico. Eu, Zé. Você, minha Ná - sim, eu já conseguiria te chamar de Ná, por mais tosco que você possa achar esse apelido.

Não quero ser completado, não acho que você faria isso por mim. Não quero ser feliz, já que isso não existe. Eu só quero que você exista, de fato. Eu só quero sentir que faz sentido estar ao seu lado a cada dia, sem saber como você é... Ver sua figura no espelho e, ao apurar os olhos, não ver mais nada. Não há metade. Não há laranja. Mas há você. Ah, você...


José Dias, presidente da associação das metades de laranja desencontradas, das panelas sem tampa e das metáforas ridículas.