quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2009

se os fios dessa estrada
desatam os nós de minha vida
não quero mais nada
senão viajar

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A verdade

Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e que a nada resiste. É um vício, às vezes um conforto, ou um egoísmo. (Albert Camus)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

E sem mais

versos e escritos que me envergonhem mais do que o normal por um bom tempo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Historinha bizarra e mal escrita de um ser desprezível

Rodolfo acordava todos os dias às 5. Saía às 6:30, tomava o ônibus das 6:35 (que às vezes passava às 6:32, o que fazia Rodolfo chegar suado ao seu destino). Rodolfo estudava Produção em Comunicação e Cultura. Odiava esse nome. Mas até gostava do curso, mesmo sabendo-o pouco útil.

Estava pesquisando telenovelas na faculdade. Nunca entendeu esse tipo de pesquisa. E aí, você assiste a novela e tira suas conclusões. Daí você escreve um negócio que qualquer outra pessoa poderia ter escrito, provavelmente? Daí você coloca um referencial teórico de algum maluco, para analisar o tal programa. Daí que isso é inútil. Ninguém vai ler. Nem seu orientador lê direito. Por isso, Rodolfo andava cansado da vida acadêmica.

Fora da faculdade, sua vida pessoal era terrível. Freqüentava bares em alguns finais de semana, ou shows bacanas. E era tudo ainda assim muito pequeno. Muito solitário. Não é que não tivesse companhias. Às vezes elas lhe faltavam e isso lhe trazia sofrimento, mas pior mesmo eram as mulheres. Ah, as mulheres! Essas deixavam-no injuriado. Consentia, muitas vezes, porém, que a culpa não era delas. Ora, ora! Elas não tem culpa se Rodolfo não tinha qualquer atrativo. Não sabia abordá-las, cercá-las, demonstrar afeto. E ainda assim, em sua cabeça, pensava amar.

Deveria certamente ser qualquer tipo bizarro de amor. Mas amor, afinal. Antes amar que não sentir nada, era o que pensava. E seguia sem acertar. Desajeitado, perdia o passo e olhava para o céu. Todo aquele azul era bonito demais, grande demais, tudo demais. E por isso cruel.

Fazia Rodolfo pensar no quanto ele não queria nada com aquele azul bonito. No quanto ele vivia sem paixão, no quanto ele não sonhava. Queria ser feliz, mas como? Sabe, os degraus do céu maldito? Nunca descobria onde estavam. Seguia cursando algo que não sabia com o que faria depois, mas sugeria sempre uma alternativa. A vida acadêmica. A tediosa vida acadêmica.

E dentro dos livros pensava ver um pedacinho da escada. Mas era apenas uma figura, uma ilusão. Rodolfo sabia que a vida palpitava ali fora, naquele azul. E invejava quem andava por aí e a cada esquina tomava um gole do céu e vivia com maestria. Vida sem maestro, sem corda, sem nota, sem dó... de Rodolfo. Por que ter dó? Dó é dor de fracos.

A escada despia-se para os que sabiam que amor é coisa volúvel, que é como céu, está pleno e sempre à procura de algo novo, e ainda assim sempre dá certo. E na busca que o amor aparecia. Se eu disser que tudo isso está além de Rodolfo, estaria mentindo. Ele entende as coisas do mundo, esse rapaz. E por isso, não faz. Fazer é não entender.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

De hoje em diante

...eu vou modificar o meu modo de vida.
(...)

Não quero com isso dizer que o amor
Não é bom sentimento
A vida é tão bela quando a gente ama
E tem um amor
Por isso é que eu vou mudar
Não quero ficar
Chorando até o fim
E pra não chorar
Eu só vou gostar de quem gosta de mim

Só vou gostar de quem gosta de mim, versão de Caetano.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Peito aberto

Sou do tipo que liga
- e chora -
no dia seguinte
ao término

sábado, 6 de dezembro de 2008

É cedo e eu estou vomitando. Na água fétida, vejo máscaras de mim, mas não me vejo refletido. Verdade: não sei quem sou. Essa face não é minha. Este vaso abaixo, também não, nem a casa, as vestes e - o mais importante - as pessoas lá fora. A cada vez que tento abraçar o mundo, vejo pés em vez de braços e chuto tudo de uma vez. Vai-se embora a intersecção: regurgito o mundo em mim e aquilo refletido já não sou eu. Esta ânsia é de se perder e se encontrar, viajar nos braços - e nunca nos pés - de outro alguém. Os pés, sim, estes entrelaçados. E na água os meus mais doces desejos, as mais belas máscaras, que você possa escolher.

Pássaro, passarinho


e só dia desses
me vi
passarinho
grandes asas
sem ninho

passarinho:
voa de asa em asa
transpassa
a fronteira do visível
e deixa beijos
no caminho

Como água

Só sei
que a vida me escorre
num fio de sangue

Pelos meus pés
a alma inquieta
não espera
o sofrer passar

Só sei
que a alma escoa líquida
pelos meus olhos
e evapora

Como se morrer fosse desaguar, derramar no céu, (...) evaporar" - Evaporar, Little Joy.

Homeopatia

De gota em gota
gole a gole
vou vivendo
em doses
homeopáticas
e apáticas
vez em quando
sincopadas
dessincrônicas
despedaçadas

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Não é bem assim, mas é bonito pensar

Quando um coração que está cansado de sofrer
Encontra um coração também cansado de sofrer
É tempo de se pensar,
Que o amor pode de repente chegar

Quando existe alguém que tem saudade de outro alguém
E esse outro alguém não entender
Deixe esse novo amor chegar,
Mesmo que depois seja imprescindível chorar

Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar
Nas coisas do amor que ninguém pode explicar
Vem nós dois vamos tentar,
Só um novo amor pode a saudade apagar

Caminhos Cruzados, João Gilberto.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sessão espírita

Achado do começo do semestre, antes da avalanche de versos, que estranho:

tenho tantos fantasmas
a expurgar
que nem sessão espírita
pode me salvar

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Blá-blá.

Esse blog estranhamente voltou a sua proposta inicial, depois de um período de textos enormes e raríssimos por aqui. Qual era a proposta inicial mesmo? Exatamente isso aqui: um blog de poemas.

A lembrar que esse ficaria em paralelo com o outro, que teria a prosa de sempre, confessional, pseudo-filosófica, enfim, o que alguns poderiam até chamar de "crônicas" e eu só digo que são "textos".

E era aquela coisa despretensiosa que eu gostava de fazer e que deixei. Fazer o quê? Não posso controlar o que eu escrevo, não consigo me obrigar a escrever por prazer. Se o prazer vem desses poemas que não sou eu que escrevo, brotam do ambiente, da rotina, de sei lá o que que me acontecer. Então não posso dizer que são meus. Mas, de algum modo, não são seus, pois fazem parte da minha vivência. Não que a minha experiência não tenha qualquer intersecção com a sua, ninguém sabe como a vida é e "mistério sempre há de pintar por aí".

Mas a verdade é que eles simplesmente fluem e por isso estão aqui. Falando assim parece que eu psicografo ou que é aquela idéia boba da inspiração, de você sentar e esperar a deusa colocar as palavras na sua cabeça. Não é assim. Eles aparecem enquanto estou comendo, tomando banho, assistindo filmes, enfim, surgem mesmo nas horas impróprias. E gosto disso. Gosto de ter o papel e anotar. São versos bobos, mas eles são eu. São o que eu consigo fazer - não que isso seja grande coisa.

A prosa não é mais fluida como já foi, mas que culpa tenho eu? É a dinâmica da minha cabeça. E que venham mais poemas de quatro linhas.

domingo, 30 de novembro de 2008

Cegueira II

Estou cego
e não sinto
vontade de enxergar

Não minto:
cansei de esperar
que esqueça do teu ego

sábado, 29 de novembro de 2008

Dois a dois

Sempre fui
sozinho até
escrevendo os
coletivos não
me aceitam
nem eu
a eles
Minto, minto.
Sou só
como vento
que tange
rasteiro tenta
se apegar
mas precisa
sair ir
a outro
lugar

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Cegueira

Eu vejo amor
em qualquer pedaço
camisas, placas, janelas
reflexos e barcos

Caminho pelas ruas
e só em mim não vejo
qualquer amor
mesmo que escasso

domingo, 23 de novembro de 2008

As luzes da cidade
me aturdem
e se perdem ao longe
sem sentir saudade

Inverno

Meus olhinhos brilhando
vendo teus alegres olhinhos
que miram longe no céu
os amantes passarinhos

Poeminha paulistano

Na Augusta da minha vida
Não achei Consolação
Fui parar na Paulista:
mais um na multidão

Viva, viva, rimei ão com ão, e não tô nem aí. Colei essa porcaria no Centro Cultural do Banco do Brasil, em Sumpaulo.

Silêncio sepulcral:
Nas mentes, um varal
assim estampado:
M-A-R-A-S-M-O-E-X-I-S-T-E-N-C-I-A-L

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Os cordelistas nunca irão dizer...

meu amor por você
é xilográfico
faço um molde
e espalho tuas curvas
por todo pedaço

mas não se surpreenda
se no molde houver outro corpo
amor é sentimento, menina,
precisa ter rosto?

O céu que nos protege

Porque a gente não sabe quando vai morrer, a gente pensa na vida como um bem incansável. As coisas acontecem num número certo de vezes. Um pequeno número, na verdade. Por quantas vezes você se lembrou de uma tarde de sua infância... uma tarde tão comum mas que você não poderia viver sem ela? Talvez umas quatro ou cinco vezes. Talvez nem isso. Quantas vezes você vai admirar a lua? Talvez 20. E ainda assim parece sem limites.


Que fique claro que o filme - O céu que nos protege, de Bertolucci - nem é bom. Mas esse final, sim.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Ainda sobre o "vermelho"

XIX

O amor tingiu de vermelho
minhas dores, meu desespero
fico rubro só de imaginar
quando me olho no espelho

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

XVIII

Meu coração pra você
É como cama elástica
Você pula, deita e rola
E ele nunca despedaça

Mas ouça-me bem
se andar comigo juntinho
verás que aí tem
E num beijo um estalinho
ai ai,
me ama também?


"não resisto
a seus olhinhos

meu coração
não é pula-pula
mas deixo cê
dar uns pulinhos"
(Colíricas, Nildão)

domingo, 9 de novembro de 2008

XVII

da próxima vez que vier
não tinja esse céu de vemelho, meu bem
conjuntivite é problema:
não a queira pra mais ninguém

sei que de ti o contágio
não se pode impedir:
olho nos teus olhos
nem quero resistir

Canção (Allen Ginsberg)

O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação

o peso
o peso que carregamos
é o amor.

(...)

Retirado daqui.
Vontade de ler Ginsberg? Sei lá.

XVI

ímpar:

assim sou, disseram-me
não entendo o elogio
como pode ser feliz
alguém tão sozinho?

Versinho da madrugada, de novo*:

XV

Nunca sou por inteiro
Sempre falta um pedaço
Acho que sou a falta

* postado anteriormente no twitter.

sábado, 8 de novembro de 2008

Declarar-se é como jogar o sentimento que nem uma batata quente na mão da garota. E ela fica sem saber o que fazer, com aquela batata quente na mão, jogando de um lado pro outro, até que, quando ela estiver pra estourar, joga de novo em você.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

XIV

hoje joguei muito fora
pedaços de vida
felizes outrora
lembranças agora

nessa ida
não pode quem chora
se o verbo vigora
pra que lamentar?

vida de memória:
guardo muita coisa
mas pra que recordar?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

XIII: Subversão e dispersão

o amor vem a galope
nos desfere duros golpes
e se deixa perder pelo chão

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

You don't know me, bet you'll never get to know me

Mora na filosofia
Pra que rimar amor e dor
Se seu corpo ficasse marcado
Por lábios ou mãos carinhosas
Eu saberia, ora vai mulher,
A quantos você pertencia
Não vou me preocupar em ver
Seu caso não é de ver pra crer
Ta na cara

Mora na filosofia, Caetano Veloso

***

I've done this before
And will do it again
C'mon and kill me baby
Whilst you smile like a friend
And I'll come running
Just to do it again.

Like a friend, Pulp

terça-feira, 4 de novembro de 2008

XII

essa lua minguante não nega
a fé do homem é cega
e o que impera é a escuridão

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

nenhum verso no bolso

...e cadê o versinho que estava aqui?

sumiu
foi com o vento
tinha algo mais útil a fazer:

a moça o viu
e nesse momento
o versinho a florescer

a moça era o vento
a mim, só o relento

- para não esquecer: XI

(sério, eles sumiram. festa dos palavrões na minha cabeça.)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Relato do exílio eterno

Pedaços de papel branco. É assim que vejo o mundo agora, amontoado de letrinhas elencadas em milhares de papeizinhos brancos. "Que mundo, seria maravilhoso se não fossem certas pessoas...", já disse Woody Allen. Foram-se todos e estou só, Woody Allen. Você gostaria de estar assim? “Mundo, mundo, vasto mundo, se eu fosse Raimundo...” – é inútil citar Drummond. Não tenho mais o “sentimento do mundo”, já que nada me resta, senão eu, minha memória e esses papéis.

Tu não sabes, mas anteontem acabaste comigo, mundo maldito. Agora te escrevo, escrevo para esquecer-te, escrevo porque me deixaste a flutuar levemente, me deixaste aqui, único ser, com as letras e a eternidade. De que adiantam as palavras, as horas, o amor que fica, a dor de uma vida sem qualquer sentido...? O contraste da pele morena na minha, os abraços intermináveis, a beleza do corpo dela sobre o meu, a voz doce que me afaga... tudo isso se foi. De que me serve o tempo, a eternidade? Por que raios os papeizinhos aparecem das estrelas, algo belo e trágico, se não me deram asas para alcançá-las? Propago aqui o último legado da desgraça humana. Escrevo tentando desaparecer e alcançar o astro mais longínquo, a estrela Dalva, ah, o céu.


Obs.: Texto feito sob encomenda para o tema "E se o mundo acabasse anteontem?". Não gosto muito dele, não o acho sincero, mas fica o registro.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Música: "Little Person"

Desde que assisti Sinédoque, Nova Iorque (que resenhei nesse post no Costeletas do Elvis) procuro uma música que tocava durante o filme inteiro. No google, no ares, no orkut, em qualquer lugar que eu pudesse procurar, nunca encontrava muito além do nome da canção - Little Person - e autoria (parceria entre Charlie Kaufman (sim!) e Jon Brion - um cara que faz trilha de uns filmes muito bons, como Magnólia - cantada por Deanna Storey - e quem souber quem é ela me diz, ok?).

Finalmente pude escutar a música que não queria me deixar sair da cadeira no final do filme (fora a tristeza que o filme provoca, que dá uma certa sensação de "pára tudo que eu quero descer"). No facebook de divulgação do filme (por que no facebook?!) a música está lá pra ser escutada e reescutada. E de novo, de novo, de novo... Ouçam!

I'm just a little person
One person in sea of many little people
(...)

Somewhere maybe someday
Maybe somewhere far away
I'll find a second little person
Who will look at me and say:

"I know you
You're the one i've waited for
Let's have some fun"

Life is precious
Every minute
And more precious with you in it
So let's have some fun


Por que não consigo estranhar o motivo de ter me afeiçoado à música? A estrofe em negrito me lembra muito After Hours, de Velvet Underground:

Oh, someday I know someone will look into my eyes
And say "hello, you're my very special one"


After Hours é minha música de fé na vida (er, amorosa, digamos). Talvez a minha preferida do Velvet Underground. E, nesse assunto de "second little person", paramos por aqui, é melhor assim. (:

domingo, 19 de outubro de 2008

A volta dos (versinhos) que não foram

X

das estrelas
segui o caminho
por não tê-las
morri sozinho

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Nonsense

Acordo e olho para o céu. Seis horas da manhã. Mas o relógio aponta que não passa de cinco. Levanto, tomo banho. Onde estão todos? Sigo meu caminho só. Chove e eu estou pálido. Existe uma espécie de névoa na cidade e não há carros nas ruas. Ando no meio do asfalto e me sinto bêbado, sem uma gota de álcool. Troco os passos, caio. É muito cedo: as horas me aprisionam e me levam para trás. Sinto minha visão apagar.

É meio dia, mas o relógio agora me diz que são seis. Estou de volta ao ponto em que tudo estaria começando. Há algo em mim que quer correr dessas horas malditas, mas sou muito preguiçoso para isso. Lembro-me de quando estava no asfalto, mas não sei como cheguei aqui. Faz um calor dos infernos e sinto o ar seco, mal consigo respirar. Um espelho. Vejo meus olhos petrificados e abertos, mas o tempo escoa por eles majestoso. Está ficando mais cedo e minha pele começa a arder.

Pisco os olhos e me sinto desintegrar. "Acho que estou ficando velho". O sol está sumindo no horizonte. Me vejo apagar aos poucos e não sinto mais dor nenhuma. Talvez seja tarde demais para ser tão cedo. Os bebês engatinham pela rua, contentes. Cada um tem um mundo nas mãos e eu não. Não posso arrancar isso deles, mal consigo me mover. Percebo que estão se arrastando para trás. Algo acontece, como uma espécie de fita cassete retrocedendo, mas eu, o bolor do vídeo, ali permaneço. Olho o relógio e são cinco horas, novamente. Hora de sonhar que tenho o mundo em minhas mãos, mesmo sem ser bebê.
Hora de ir.

sábado, 11 de outubro de 2008

Existe o carma, existe a dor e a agonia, a ansiedade é a poesia, de certa forma, da vida. A calma não me comove, a chuva é boa só se molha, então chove logo de vez que eu dou um jeito aqui e saio para te encontrar. Você que conhece a destreza das tempestades e a eternidade dos sonhos... me ensina?

terça-feira, 7 de outubro de 2008



"À força de sentirmos piedade dos heróis de romances, acabamos sentindo excessiva piedade de nós mesmos"

Borges

Nem eu aguento mais meus versinhos.

VIII

Haja paciência
para quem critica
o racionalismo alheio

Não seria isso feio?
puro raciocínio?

Assumamos, pois,
nosso lugar
nesse latifúndio
Racionalistas somos todos
até o túmulo.


IX

ter sono
ver sonho
versinho
verdinho


(Acho que são os últimos, aleluia.)

VII

Passo a vida
tentando ter pena daqueles
que não conhecem a entrega

Mas fico sem saída
A cada vez que vejo neles
o que a vida me reserva

domingo, 5 de outubro de 2008

V

censurado.


VI

The Clash de manhã
para acordar
Caetano meio-dia
para relaxar
E acabo de inventar:
pra fazer morrer a noite
Half a person, The Smiths

Merda.
Entrei pra adolescência nesse ano.

sábado, 4 de outubro de 2008

IV

Já sei
dessa vez me acostumo:
Todo depressivo
tem um quê de imaturo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

III

O problema da minha vida
é não ter nascido num filme antigo
Tudo estaria resolvido:

A mocinha me olharia de repente
Me beijaria ardente
(E não mais que de repente)
eu seria feliz

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

I

Quanto mais estudo
mais tenho certeza:

Jornalismo não põe mesa.


II

Sempre que a vida me perturbava
Eu dizia:
Tá chovendo
ou é impressão minha?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Blá, blá, blá

Uma semana se passa e o que vejo? Não tenho idéias boas, minha gente. Se eu me propusesse a escrever estória, ou sei lá, conto ou qualquer coisa, sairia uma porcaria. Daí que eu escrevo esses textos apaixonados que, como disse uma amiga, começam do nada e partem a lugar nenhum.

E a cada vez que me proponho a escrever qualquer coisa mais estruturada, que não explore apenas os limites do eu, quebro a cara. Quando é seriamente, então, sobressai-se a falta de talento. E ora, o que mais eu acho que sei fazer, se não escrever? Nada.

Ventania nesse campo vasto e vazio que é minha cabeça. Vento não é tempestade, antes fosse, assim remexia as estruturas limitadas que estão pelo cérebro.

Fato é que se eu depender do que escrevo, morro de fome. Então, isso tudo deveria ser apenas diversão, de mim para mim mesmo, e quem achar divertido também. Mas não é.

Agora é que ficarei no mantra: sem crise, sem crise, sem crise, sem crise...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Tem uma música do John Mayer, feita para o irmão dele - assim eu soube de uma fã dele e nunca procurei saber se era verdade -, chamada Lifelines.

É uma coisa estranha essa música, tem qualquer coisa de familiar que me prende e de tempos em tempos eu ouço, por pior que seja a qualidade da mp3. E a letra, ora, ela me parece tão verdadeira...

You saw me sleeping on the couch tonight,
I know it serves you right
Makes you luckier than I
All the colors in the room have changed
Compared to yesterday
But brother I've discovered you

We're pushing on
We're passing through
And it wont be long
'till I walk with you
Tonight I'm down
I'm inside out
Staring at the pictures in the album you forgot about

And isn't it a shame
times have changed
But isn't it strange
Lifelines stay the same, the same


We're never where we want to be
That's okay with me
That's just the way it is, they say
It feels like make believe
That you're my history
But brother I've rediscovered you and

(...)

round and round
I can't believe my heart has waited this long
All along, we've been children in a cold world
Where wonder was lost, every day
and if love was a compass
Oh, I've lost my way


Ok, então, ninguém acha John Mayer grandes coisa, nem eu, para ser franco. Mas essa música é... é o que, para mim? Como diria alguém a quem tenho muita afeição, é "purê de coração".

Pronto, é isso: sou brega e com orgulho.

domingo, 21 de setembro de 2008

"No canto do cisco, no canto do olho..."*

Ei. Quando sair, pode deixar a porta aberta? Não é medo do escuro, não me entenda mal. Só não quero que você se perca deixando aqui esse vazio, deixando a dor nascer no horizonte e despontar nesse vão que vai se formando pouco a pouco, desde os primeiros raios de sol até o fim da tarde, essa luz horrível preenchendo o meu quarto, ora, que quarto? Eu só falo é do meu coração, e eu continuo dizendo coisas estúpidas sobre coração.

Continuo gelando a cada vez que você aparece e torcendo para que essa porta não se feche, de repente. Há, afinal, uma porta, não há? Não me diz que só existe esse poente infernal a encher-me de suor e cansaço, a fazer meus olhos doerem, ofuscando você. Então, eu rezo para te ver. Fé é uma coisa engraçada, não é? Parece que eu vou ser sempre esse rapaz a crer, desacreditando. A ter esperanças e enganar-se na consciência de que não, nada vai acontecer.

Se você reaparecer como antes, em circunstâncias misteriosas, como se aquele encontro realmente tivesse um significado maior, além dessa risível alegria que me perturba a cada pensar que "a menina dança, e se você fecha o olho, a menina ainda dança...", só não se esqueça de ficar aqui comigo pelo eterno estéril que eu inventei para nós, está bem?

Menina, quer dançar só para mim?


* A menina dança, Novos Baianos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Abstraindo Eco

Eu te via atrás da tela, espelho disforme.
Atrás das letras, dos signos e significados.


Estou sempre falando de espelhos sem forma - e na verdade não sei exatamente o que eles são - e abstraindo involuntariamente de textos teóricos chatos. Normal, certo?

Umberto Eco é um sujeitinho repugnante. E tenho dito.

sábado, 13 de setembro de 2008

Conclusão tardia

Percebi que prefiro a poesia
ao segredo
A alegria espasmódica
ao medo

Eu olho a mística dos teus olhos
Como quem contempla um espetáculo divino

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Retirado do blog Esquizofasia.

Tudo a ver com o novo tema do blog. Tudo a ver com o post abaixo, o texto de minutos atrás.

Dez anos

Eram apenas dez anos e toda uma vida pela frente que já parecia meio abortada.
É verdade que nunca me senti normal. Os garotos, de modo geral, todos evoluíam. Todos com seus amigos, sempre um novo a cada verão, e eu, onde estava?

Eu corria, mas a vida corria mais rápido de mim. A vida era uma pipa no céu e eu, menino desengonçado, não sabia empiná-la. A vida, uma bicicleta enfurecida, e eu a andar nela sempre de rodinhas.

Hoje eu sei como aquelas paredes brancas de mais de vinte e cinco anos, sujas pelo tempo e pelas lembranças, tem algo de mágico. Naquela casa que deixei, a vida que não era se fazia real, a solidão se despia e era bela, todos os meus amigos apareciam. A solidão nua era colorida, e dançava sobre mim, levando-me no sonho de papel ao infinito. Ali eu brincava de viver ou vivia de brincar?

Por vezes, em mim uma lágrima caía, enquanto a chuva intempestiva irrompia naquela casa aos berros e a solidão era feia e dessaturada, pinga-pinga na pia. Era um choro quase mudo que eu ouvia e ecoava em mim. Aqueles gritos e o pinga-pia em quatro paredes, claustrofobia. Era um pássaro preso, minha mãe querida.

E aqui - não tenho mais dez anos - eu sinto a vida como um pássaro raro. Posso vê-la vindo no horizonte, com o mesmo olhar de criança de antes. Não sei, mas algumas coisas nunca mudam. Sou ainda aquele menino, mas perdi a velha inocência. Hoje a vida me acena de longe e faz que quer conversar. Me sinto velho e cansado, mas corro com a mesma força de antes em sua direção, gaiola à tiracolo, mas ela só se deixa prender quando quer. Pássaro raro - bem me quer, mal me quer.


A solidão hoje é líquida e transborda, mas pede para ficar. A solidão é uma tartaruga que em mim habita.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Long Play on this old old road that is my heart...

Vejo que o céu está desferindo seus últimos raios. Sim, ele solta raios quando está feliz, quando me acaricia antes da treva vir.

A luz laranja beijava sua face e voava para mim. Os céus, ora, adivinham mesmo os encontros felizes. Era isso que queria lhe dizer, menina, da outra vez que conversamos. É hora do Sol se por, mas que Sol? Olho-te nos olhos, e sei que há algo reservado para mim no brilho que irradia deles.

Vejo uma núvem e tenho medo. Que o acaso pregue peças e pequenos jogos de amar entre eu e você, acho até bonito. Que me deixe a ansiar por você em vão, a olhar em direção às linhas tortuosas do horizonte, ao ar alaranjado e quente que se forma nessa falta, não. Que me deixe à espera de que ele, o acaso, nos reúna, não.

Então, nos reencontramos de novo, e o que você me diz? Leio no seu olhar um "sim", mas como saber? Se eu nunca soube dessas coisas mesmo... Sobre a solidão, sim, isso eu sei. Mas agora eu peço que você me ame. E que essa luz alaranjada, que esse céu de setembro a fazer coro ao que sinto não esteja mentindo.

Se o céu e os astros fossem dissimulados, em que mais a gente poderia confiar nessa vida, Luísa? É bonito de ver que eu voltei a ser quem era, e você também voltou a ser. Você finalmente tem nome, e talvez esse reencontro não seja simples conspiração do acaso. Instantaneamente eu deixo José para trás e volto a ser Pedro. Deixo de ser homem e volto a ser menino por você.

Afinal, há de haver sempre um astro sob o signo de minha vida, a me sussurrar a direção invisível das estrelas, do encontro, do crepúsculo. Há de haver os raios de outra manhã, em que se monte esse quebra-cabeças louco que somos nós, envoltos nas nuvens do céu.

P.S.: Já fui José, depois Pedro, e então José de novo. É engraçado que quando vi no blog de André Takeda uma estória do casal Pedro e Luísa, relembrei de mim, quando, por mera coincidência, assim escrevi: "Vamos aos fatos. A mulher que Pedro idealizava não era ninguém tangível, nem mesmo tinha uma imagem fixa. Era como uma canção louca, afinando e desafinando, mudando de tom e de ritmo bruscamente, afigurando-se e desaparecendo. Ao passo que conhecia Luísa, ela o conquistava, tornando palpável aquele seu ideal, mas escorria de seus braços como água. Amava-a devotamente e percebia que esse sentimento crescia desmedido. Era como se fosse destinado a amá-la, porém não acreditava em destino. Gostava de encarar a vida como fruto de felizes e infelizes acasos. Por ventura, conheceu e adentrou aos poucos na vida de Luísa e por ventura nela permaneceria. Do futuro, nada sabia. Gostava da idéia de haver um amplo horizonte de possibilidades, mas odiava o caráter brusco e mutável dos acontecimentos. “De um beijo, posso ir à lama, eis o mistério que me corrói”, ponderava Pedro."

domingo, 7 de setembro de 2008


Quem tiver feito esse desenho - não sei quem é - é genial.

Mudei a descrição que o blogger "pede" daqui. Agora é: "decadência poética. prosaísmo nonsense. brega pop. hedonismo e estoicismo."

Em textos simples, nunca sei o que dizer. Gosto mesmo é de falar aos ventos.

sábado, 6 de setembro de 2008

Sim, sou brega

Acho música em frânces na maioria das vezes uma breguice total. Então, não me permito gostar de muitas delas. A questão é que sempre tem algo que eu sei que é brega, mas gosto muito. Tem coisa mais brega que o amor? E há outro tema nesse blog que não seja amor? Só raramente.




Hoje eu olhei meus vídeos favoritos no orkut e lembrei de quanto eu gosto dessa cena do filme "Em Paris". Não deram muita bola para esse filme, mas eu o achei muito belo, de tal modo que o dueto - em breguês, ou seja, francês - não saiu da minha cabeça durante dias. E ainda gosto dele com a mesma intensidade. Como não sou poliglota e, acredito eu, nem a maioria de vocês, segue-se aí a tradução da letra, muito bonita:

Avant la haine (Antes do ódio)

Ele:
Saiba, minha linda, que os amores
Os mais brilhantes se sujam
O sol sujo do dia a dia
Submetem-lhes ao suplício

Tive uma idéia inadequada
Para evitar o insuportável

Antes do ódio, antes dos golpes
Dos assobios e dos chicotes
Antes da pena e do desgosto
Vamos terminar, por favor

Ela:
Não, eu te beijo e isso passa
Você bem sabe
Não se livre de mim assim

Você acredita que vai se sair bem dessa
Me abandonando ao léu
Do grande amor que deve morrer
Mas você sabe que eu prefiro
As tempestades do inevitável
À sua pequena idéia destrutiva

Antes do ódio, antes dos golpes
Dos assobios e dos chicotes
Antes da pena e do desgosto
Você diz para terminarmos

Ele:
Mas eu te beijo e isso passa
Eu sei bem
Não me livro de você assim

Ambos:
Antes do ódio, antes dos golpes
Dos assobios e dos chicotes
Antes da pena e do desgosto

Eu poderia evitar o pior

Mas o melhor está por vir.

P.S.: resolvi o problema do blog, acho. Quer dizer, pelo menos eu gostei da mudança que fiz. (:

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Futilidades

Esse blog curiosamente fez um ano em 31 de agosto. Eu o mantive paralelamente ao Do Asfalto (que me deu uma saudaade dia desses) até decidir adotá-lo de vez, por preferir o nome, o nem tão bem sacado (mas o melhor que pude pensar até hoje, acho) trocadilho embutido, e decidir unificar duas idéias que não levariam muito mais longe em uma, que também não está bem sucedida. A primeira, sem sucesso, era fazer pequenas crônicas sobre coisas comuns. A segunda, poemas, feitos sem qualquer cuidado ou excesso de pensamento.

Fato é que as duas idéias convergiam mesmo: a necessidade de escrever sobre mim acabava gerando uma prosa-poesia horrível, mas até que bem sincera. E fato também é que o Do Asfalto, apesar do nome, era muito mais bem cuidado.

Pensando agora, vi que não gosto desse azul de fundo, não gosto desse logotipo, não gosto do subtítulo (o pior de tudo é isso, acho), enfim, o layout é uma porcaria. Pensei então em fazer uma "greve" até consertar tudo, mas do jeito que as coisas vão (ando cada vez mais ocupado) acabaria largando o blog.

Decidi: pelo um ano de postagens, vou dar uma melhorada em tudo aí. Eu ia mudar de blog (pra variar, nunca fico em um), mas resolvi que não, gosto do nome, e alguns textos têm valor afetivo para mim - é bem claro quais são eles. Enfim, até uns dias (?).

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Minha vida era um palco iluminado
E eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão lá no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do Sol a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher, pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional.
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
E tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

O poeta brasileiro Manuel Bandeira costumava dizer que o verso "tu pisavas nos astros distraída" era o mais belo da língua portuguesa.

Manuel sabia das coisas.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O instante decisivo

Ela prostrou-se de lado para ser fotografada. Olhava a lente percorrer suas asas, que asas?

As asas feridas, centros de gravidade de sua vida, ela escondia do mundo, mas não do fotógrafo. Para aquele clique, resolveu transbordar a essência do que havia em si. A beleza das tardes pensando em manhãs felizes que nunca ocorreram. A pureza das noites mal-dormidas, pensando no rapaz, aquele rapaz atrás das lentes. Não era pela arte que ela se desnudava ali, era pela sua vida. Era o amor que queria nascer, mas não podia, botão de rosa murcho, haja sol para fazer florescer.

E no instante do clique, fez-se a mágica. Ainda não se sabe o que houve, como se um excesso de luz se instalasse, ofuscando a fotografia.

Era a vida que pedia passagem, e gritava pelo seu estatuto de arte - "instante decisivo" é arte menor. E eis que a cegueira do fotógrafo se curou: em um passe ele resvalava a face da mulher, beijava-lhe os olhos e a nuca, fazendo-a se contorcer e suspirar.

A manhã fez-se material e o filme que havia queimado, registrava sozinho cada quadro. Era a memória de mais uma cena de amor estranha a todas as outras, verdadeiro "instante decisivo".

A vida, essa fotógrafa endiabrada.

Distração semiótica para a Semiótica

A minha prolixidade
Arde
Bate-bate sem fim
A querer alongar-se além
do palpável
O irrisível, inacreditável
- Ridículo.

domingo, 31 de agosto de 2008

As escadas do sem-fim.

Descia as escadas, tentando contar os degraus, mas sempre perdia as contas. A escada levava à terra - os céus que lhe mandaram por ali. Desajeitado, levava a vida no compasso desritmado, escondia-se de si e dos outros. Pobre diabo, disse a horrenda quimera que lhe maltratava. Ainda serei pleno, respondeu-lhe olhando a claridade ofuscante que vinha de cima. Sentia a mão da quimera a pressionar-lhe as costas, mas sentiu-se leve, leve, por um momento. Pensou em toda a sua vida, e achou por bem mandar a quimera ao inferno, pois ah, sim, chegaria de novo ao céu. No ímpeto da liberdade, pisou em falso e rolou escada abaixo. Pois a quimera, ora, era ele mesmo.

Obs.: isso ficou uma porcaria. A idéia está aí diluída. Quer dizer, que idéia? Se eu sempre escrevo assim, sem saber de onde vim nem para onde vou?

(...)
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?"


Paulo Leminski.
Grato a uma amiga pela indicação. Alguns poeminhas parecem tolos, tolos, mas sabem falar ao coração.

Eu tento olhar para você, mas só vejo poesia. Minto. Vejo doçura nos teus risos, que hoje só posso imaginar, menina. É isso. Uma doce criança a me acompanhar pelos meus anos tristes, a me alegrar.

Eu vejo que você é doce por completo. Nessa sua voz, minha lembrança nítida, parece cantar a vida. A vida mais que distraída, alegre em sua profusão de cores e graça, a vida que não é diferente de você.

Então, quando não mais te vejo, sei que vais além, ah sim, vais além de mim. Você: tentativa constante de ser feliz, forte em seu vôo leve e por isso rasante, que não esquece quem por qualquer infortúnio não se lembra qual o sentido da vida. Você: sonho sem fim, meu porto a cada temporal, desde os tempos mais difíceis, porque não se prende à materialidade angustiante das horas, e dissipa o peso dos lençóis cinzentos do céu.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Tolice noturna.

É estranho o modo como nos encontramos. Como se o mar e o vento soprasse ao nosso favor naquele fim de tarde, e o Sol me chamasse porque sabia que algo de muito importante estava a acontecer. Eu sei, meu bem, você não crê nessas minhas palavras. Eu sei, você não é meu espelho, e, pela primeira vez posso dizer que gosto de alguém pelo que é e não de um simulacro.

Gosto da materialidade dos teus toques e sutilezas, do amor que você põe em cada gesto. Sei que você dirá que eu sou brega. Sei, aliás, que poesia, para você, é somente solidão. Mas eu preciso compartilhar, o poema, para mim, é a tentativa de estender-me além, de atingir a barreira que separa de mim o mundo. A fronteira entre o pensar, entre eu e você.

Eu sei, meu bem, que estou juntando os cacos da minha poesia velha e gasta por você. E posso dizer tudo que quero lhe dizer, todo o sentimento que é mais pesado que eu e quer sair: é líquido, mas o meu corpo o congela. E então você vem, e acalenta. Você, fullgás. Você, ar suspenso, tentativa de alcançar o céu como balão e sumir por aí, pelos ares que nos circundam e fazem tudo aquilo que é nós dois.


Texto inspiração: A solidão do poema, Heron Moura.

sábado, 9 de agosto de 2008

Propaganda é a alma do negócio?


O saudoso (para mim) blog de cultura pop Costeletas do Elvis está de volta. Abandonei o tal Síndrome de Alt-tab, já que gosto mais do outro. E vejam só, voltamos com visual novo, tão bonito. Tá bom, parei de elogiar o que faço. Vejam e pronto.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Mais uma citação...

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco."

Memória de minhas putas tristes, Gabriel García Marquéz.

- Livro menor do escritor, mas bastante fluido, rápido. Discordo sobre a parte do zodíaco, mas talvez o amor não seja mesmo um estado da alma. E há um pouco de mim na citação, mas não convém dizer exatamente o quê. Acho que eu não saberia dizer.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Descontinuidade dos desromances

Tão felizes poderíamos,
menina, bailar à rua
E eu a velar-te nua
em teu olhar sobranceiro

Mas ficas a vagar perdida
Passas pela vida triste
Com tua solidão em riste
Negas-me a lua, o coração

E tu me olhas
De longe me olhas
e sei que me odeias

Não odeia o que eu odeio
em mim, odeias o mistério
de ver-te em mim

E assim verto
O sofrer calado no peito
Nessas palavras inúteis...

Ah! Minha sopa de letrinhas.
Nunca sou por inteiro
Sempre falta um pedaço
Acho que sou a falta

domingo, 27 de julho de 2008

Dos poemas que eu queria ter feito...

mas não sou poeta.

Eu tenho idéias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.

***

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.

Fernando Pessoa.

...

O último post foi mais constrangedor que qualquer texto egocêntrico que eu coloquei aqui.

É, não tem jeito. Só sei falar de mim mesmo.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Propagandas que vão mudar o mundo

A onda das propagandas ultimamente é ser filosófico ou poético. Já viram aquela da Natura, que foi parar nos vídeos favoritos de profiles no Orkut de muita gente?

A rotina da pele não é o arrepio. Do pé não é a dança - é o andar. Acontece que, como propaganda, isso colou muito bem. As pessoas gostam de mentiras, de pensar que "toda rotina tem sua beleza", quando, na realidade, as coisas descritas simplesmente não são "rotineiras" em vidas normais.

Não, e aquelas da Nobel, de tom "questionador"? De "vamos fugir do óbvio, das mulheres de biquini e gente feliz bebendo, incluindo algum ator de novela. Mas como faz, então? Ah, joga umas pessoas falando coisas que parecem inteligentes, para ver se a gente forma um público culto e elitizado". E o cara de uma das propagandas é assim: o pé grande playboy. E posa de "eu acho que filosofo", pensando sobre os relacionamentos. Ridículo. E wow, quem se importa com a cerveja? Boa ou ruim, o que influi é o teor de álcool, não a marca*. Já na outra, a mulher é a descolada beberrona. Ok que ela transe no primeiro encontro (e esqueça a opinião da sociedade). Mas o que isso tem a ver com cerveja? Hein? Seria essa a marca dos descolados? Pff.

É, né. Não dá pra ler. Clica.

A tal cervejaria parece querer um segmento específico: pessoas que pensariam como esses dois. Mas, sinceramente, não convence. O pior é ver tais vídeos igualmente favoritados. Publicidade gratuita é boa desde quando?

Cadê as propagandas de cerveja sem álcool? Lei seca, minha gente!


*É mentira. É, eu gosto de uma mentirinha boba, também. Enfim, o fato é que a marca influi. A ressaca do dia seguinte que o diga...

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Insustentável II

Andei lembrando do tempo que as coisas me inspiravam mais... e eu escrevia sobre elas e sobre a vida. Ah, há dois anos atrás eu quis ser escritor, ou coisa parecida. Se ainda quero? Eu só sei que vivo e nunca estou satisfeito. Talvez simplesmente eu não queira as coisas com a intensidade devida, ou não saiba o que quero exatamente. Eu sei de uma coisa, apenas: quero viver. Não falo de continuar vivendo, falo de agarrar essa louca desvairada com as mãos e dar-lhe boas chibatadas, espancar essa masoquista maldita que é a vida.

Se estou com raiva? Não, não, é impressão. Talvez eu sempre tenha sido assim, simplesmente... como posso dizer? Difícil.
E talvez eu prefira meus tempos mais sonhadores, quando me vencia mais facilmente e a vida era mais leve. Tento buscar em que ponto me perdi, mas acabo me perdendo em cada esquina, em cada sorriso antigo, em cada recordação desbotada de uma vida que não deveria estar sendo desconstruída assim - vide título do blog.

E talvez seja mais fácil buscar personagens e preenchê-los de sentimentos genuínos e não necessariamente meus. Ou quem sabe são totalmente meus, e ele - o personagem - apenas um disfarce?
Talvez - e esse é o último talvez - eu precise de máscaras, precise me esconder de mim, para me achar.

Looking back...

over my life
(...)
I can see love
turned to hate

And I know
Yes, I know
I'd never make that same mistake again...

Looking Back, Ruth Brown.
Parte da trilha sonora de Um Beijo Roubado, o bom filme que me deixou um pouco aturdido, apático, ou sei lá como dizer.

Mas eu entendi as coisas e o filme. You know, I'd never make that same mistake again...

P.S.: piadinha super original: José Dias se juntou ao Padre dos balões. Usar gps como fäs//...

segunda-feira, 14 de julho de 2008

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Quem vai dizer tchau?

José estava feliz, porém sobranceiro. Dentro de si, sentia que algo mudava. Sentia-se leve, enquanto olhava as estrelas. Pôs seu olhar no vermelho. Era o sangue do mundo a escorrer, desvanecendo-se em azul, e essa visão pareceu acalmá-lo. Um dia José olhou para o mundo e viu o azul sumir em negro, e um nó ficou preso em sua garganta. Mas hoje ele se sentia livre. E, pensando, não se deu conta de como as estrelas pareciam mais próximas e brilhantes. Não viu que elas pareciam cristais no céu, e piscavam para ele, dançando continuamente na extensão sem fim. E então José percebeu que tinha se tornado parte do universo. Que o mundo e todas as pessoas eram bonitas, resguardando em si toda complexidade e contradição, mas, no fim das contas, ele não tinha nada a ver com elas.

Na leveza que sentia, José olhava-se espantado. Como podia levitar? Em toda sua vida, nunca pensou em voar, nem mesmo andava de avião. Passava horas olhando a lua e as estrelas do céu citadino desde criança e sentia-se feliz por isso, sem saber por quê. Agora ascendia aos céus e tudo ficava claro, muito claro, porque as coisas eram mesmo várias, confusas e loucas. E José sentia que tudo agora fazia sentido, porque nada mesmo importava. Porque ele se tornava parte de algo maior, que o aturdia, mas o agradava como nada nunca o fez na vida. Percebia sua estrela nascer e sua matéria incandescer, mas nada fazia. Nunca se sentira tão feliz em vida. Via o Sol e sentia alegria, porque finalmente enxergava que o Sol não era vermelho e, sim, oh, aquele sol finalmente era o verdadeiro e majestoso, e não alguém que o substituía.

E ele ria, como nunca. Lágrimas desciam pela sua face, e como era lindo observá-lo lá no alto, sorrindo e se despedindo da Terra. Pontos brilhantes se espalhavam pelo céu e a maioria das pessoas não entendiam o que era aquele espetáculo que lhes escapava à compreensão, pois não o observaram desde o início. Mas eu, que o vi nascer, pude distinguí-lo ali, no meio da nebulosa em que se tornara, encontrando a merecida paz. E eu pude ver tudo isso, mais do que qualquer um, porque José era uma parte de mim que se despregava e expurgava seus fantasmas, e eu, aqui da Terra, pedia que ela mandasse uma mensagem às estrelas. Dissesse que elas eram tudo que eu jamais pensei querer na vida, que eram mesmo muito belas, mas que eu ficaria aqui. E continuaria vivendo, não com a mesma intensidade de José, mas talvez com a mesma maestria, com todo o desprendimento, e, quem sabe, com alegria.

Último surto "emo"

Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope, no harm
Just another false alarm

Last night I felt
Real arms around me
No hope, no harm
Just another false alarm

So, tell me how long
Before the last one?
And tell me how long
Before the right one?

The story is old - I know
But it goes on
The story is old - I know
But it goes on

Oh, goes on
And on
Oh, goes on
And on


Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me, The Smiths. Não ouço The Smiths, não gosto deles. Mas tenho que admitir que essa música é simplesmente incrível. Se não conhecem, ouçam. Se conhecerem, escutem a versão de Grant-Lee Phillips, que eu ouço mais. É muito pior que emo, eu sei. Aliás, não entendo porque associam música emo à tristeza, se a maioria acaba sendo alegrinha demais. Essas bandas não sabem sentir, todo mundo sabe disso.

Talvez eu saiba um pouco mais.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Conversas pela madrugada.

- "Banda de laranja. Parece que a "grande faca do destino" fez um trabalho tão ruim... como pôde estraçalhar as metades de tal forma que nunca se encaixam?" (original aqui) Adorei!

- Como, se você já achou sua metade...?

- Deixa eu terminar de ler! ... Gostei, de verdade. Esse amor é chuvoso e temperado, deveras. "Você é a garota mais interessante que já vi na vida. Eu sei que você não é assim. Você não tem forma. Você é um espelho disforme, a banda perdida da laranja que nunca existiu. A cada vez que tento te alcançar vejo como sou idiota. Afinal, não amo você. Amo a idéia que eu tenho de você, que nada tem a ver com você. O que mais assusta, enfim, é que você saiba disso." (original aqui) Que idéia você criou dela, José? Me explica melhor?

- Bem... eu a acho muito bonita, Clara. De todas as formas. Mesmo que eu venha me decepcionando aos poucos...

- Prossiga... estou ouvindo com muita atenção.

- Sabe? Mesmo que eu sinta raiva às vezes, mesmo que eu não deva gostar dela... eu a amo e amo. Enfim, ela seria um desses amores que parecem quietos, mas que guardam em si a tempestade que eu queria para minha vida.

- Ohhh...

- Ela... simplesmente é diferente. É sensível e de um olhar que atinge fundo... e em cheio. E faz você querer olhar de novo. Enfim, é aquela, atualmente, que eu queria fazer de tudo pra fazer feliz. Porque eu realmente a acho especial. Realmente amo os olhos castanhos e grandes. E não porque são castanhos e grandes, mas porque são mistério. Aliás, ela é toda mistério - tudo que eu sei sobre ela tem lacunas. E o mistério me atrai tanto quanto...

- ...essa declaração foi, sem sombra de dúvidas, a mais bonita e sincera que já li. Meus parabéns, você tem um amor de ouro.

- ...e eu estou desmontando aqui. Agora você entende por que não posso continuar sentindo isso?

- Sim, entendo muito. E como pretende parar essa tempestade?

- Não sei... Estou à espera de outra. De alguém que me encante assim.

- É uma boa. Deu certo demais comigo. Você precisa conhecer muita gente, José. Assim acaba conhecendo uma laranja inteira, que quando te vir, se partirá em metade.

(Parte III de "José Dias"? Talvez.)

terça-feira, 1 de julho de 2008

A vida é um poema ruim

Recentemente, reli todos os poemas aqui publicados. Odiei-me ao lê-los, vi o ridículo que sou e a falta de talento nos versinhos infantis.

Mas vi uma frase que só me lembrou do meu antigo ideal para esse blog - local para postar poemas que fazia no ano passado (fiz alguns ainda nesse ano, mas nos últimos meses tenho poupado a blogosfera de mais tosqueira). Eu criei uma categoria de posts, que está ali ao lado - decadência poética. Um dos meus posts foi: A vida é um poema ruim.

Foi interessante o que encontrei hoje. Uma frase de Oscar Wilde, autor do Retrato de Dorian Gray e outras obras (mas eu só li O Retrato...): "Toda poesia ruim brota de sentimentos genuínos. Ser natural é um convite à obviedade, e ser óbvio é ser totalmente não-artístico."

Acho que, pelo menos, de um mal (ou bem?) meus poemas não padecem: falta de honestidade.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Menina má.

Pensei em um dia diferente. Seria simples e lindo, mesmo que chovesse e o céu despejasse seus mais intempestivos raios... O que não ocorreu - ameaçava chover, mas o tempo estava majestoso.

Não que fizesse aquele sol praticamente opressor no cotidiano e senhor da beleza das manhãs despreocupadas. Mas parecia tudo conspirar a meu favor... exceto ela.
Larguei de mão meu desalento, minha decepção. Ela não é quem eu pensei que fosse. Ninguém é. É certo que isso é o que a vida nos guarda como a verdade soberana e a chave de se relacionar... mas é fácil falar que se é ciente disso. Difícil é lidar com as pessoas. Difícil...

A felicidade inspirou-me num ímpeto inebriante de sufocar-me com seus beijos e carícias docemente... docemente...
Infantis. Fogem-me as palavras...

É Dor. Aquela que se sente calado, que desata a doer repentina, embora aquiete-se face às obrigações que matam o jugo do homem sobre sua sina.
Mas, contra a desilusão que me embriaga, lá estava, radiante, a estrela menina. Brilhava em seu peito, como lua no sertão - que só vi em foto, uma pena.
Naquela dia eu seria rei. De mim... e sobre o tempo - crono e psicológico. Sabe-se lá como...

E por ironia do destino, ou qualquer fragilidade infantil... vi tudo em cacos. Desilusão, desolação... Não. Já sou crescido o bastante para entender-me como um nada, um ponto sem nó, pateticamente de mínima significância diante da escala - mesmo a microcósmica - dos acontecimentos...

Também não desatino em queixumes... de ser só um menino. Com casca de gente. Que se sente gente. E nem sabe sê-la.

Não guio o mordaz e veloz destino. É fácil não conduzí-lo, que fique claro. E humanamente impossível controlar este intangível que se materializa sobre você e por vezes oprime. É a dúvida, a fraqueza.

Não sei por que não me desvencilho disso tudo.
E dela. É verdade que guardo um afeto que abrupta quase sempre em sua presença. Quase.

É estranho essa coisa de sentir, de que tão pouco sei. Não fui alfabetizado nisso - sou do século XXI, e acompanho as patologias mais modernas, que se adequam àquelas velhas de comportamento. Isso explica porque estou escrevendo isso frente a um computador, desperdiçando meu tempo tão mal esquartejado - na verdade, queria cortá-lo menos ainda, queria deitar no chão por horas e poder jazer ali, assim. Sim, acho que sofro de algo... como muitos podem padecer de coisas piores do que esse meu mal quase... idílico. Que, compreensivelmente, não cessa. Porque não aprendo. Perco-me em idéias, fatos... e passado, no meu breu. No breu que faz aqui, e no frio que sinto nos dedos que digitam sem cessar.

Escrever tornou-se uma espécie de catarse, mas não uso as palavras certas. Não tenho qualquer segurança de mim, minha personalidade e minhas decisões.

Não me compreendo - insisto em pensar-me como um enigma. Se eu o fosse, seria o mais ridículo e enfadonho possível. Porque consigo sentir-me feliz ao lado dela, a minha menina. Minha doce criança.

P.S.: O texto é velho e mesmo muito mal escrito. Postei só para ver se me vem um incentivo a continuar escrevendo. Quem sabe, dessa vez...

Yo no creo en camiños...

Acho que sou o tipo de pessoa que nunca esquece aquilo que é. E odeia, ah, como detesta ser.

Cheguei à conclusão de que me odeio nesse blog. Talvez por isso, não consigo escrever nada mais aqui. Ou talvez seja porque eu simplesmente não tenho que seguir a mesma linha pseudo-literária que - antes naturalmente - seguia.

Vou preferir, pelo menos uma vez, os caminhos tortuosos. Ah, se vou.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Coisas assim não são feitas por um qualquer

Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água. (O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar).

quarta-feira, 14 de maio de 2008

E agora, José?

Só agora consigo escrever-te, Annie. Já se passou mais de um mês desde nossa última correspondência. Desde lá, pareço ter parado no tempo.

O que é o tempo, Annie? Agora que estás desfigurada, de que me serve o tempo? Quando colarei os teus pedaços, de que forma conseguirei tornar-te real?

Rosa-menina, rosa-menina, rosa-menina. És doce, doce, doce... Transfiguraste tuas formas, bem como previ, mas a doçura continua em teu olhar. Seus olhos permanecem vívidos e incisivos, a queimar-me a boca. Apareces e somes, Annie Hall, quando queres, esqueces que existo. Dói-me o corpo a situação em que estamos... Dói-me a alma, que não é a alma que tu pensas, é minha essência. Eis aqui o meu eu despedaçado, também desfigurado. É como a metáfora que usei antes: as metades de laranjas não se encaixam.

Eu imagino agora o que pensas de mim agora, Rosa. E penso, repenso...

"E agora, José?

Você que é sem nome, que faz versos - em vão -, que ama demasiadamente. Está sem mulher, a noite é desestrelada e o dia não veio - nem virá. Sua utopia é maldita, vai ser gauche na vida, vai, sim... José, ê José. Não se parece com o José de Gilberto Gil. Você perdeu Juliana - Annie - em outras circunstâncias, não matou ninguém, não é bravo e o sorvete nunca será vermelho - ainda bem! Mas bem que o outro José, o José de Drummond, ah, sim, você é assim. Você veio antes do tempo, sem saber ser nem aprender. Você não é nada nessa sua vida. Sua doce palavra, seu desejo de vida... Ah, aprenda sua hora, rapaz. Se tens a chave, espere a porta. E a porta não vem... E agora José? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse... Mas você não morre. Acorde, José. Desista. José para onde? Gauche-gauche-gauche (ad infinitum)." - inspirado/copiado de Drummond e, muito menos, em Gilberto Gil.

José Dias tenta se reeleger à presidência do sindicato das metades de laranja desencontradas, das tampas de panela (...). Enquanto isso, José escreve, escreve para ser Zé.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Recesso?

Nem falei nada antes, mas não consigo escrever nada do estilo que vigora nesse blog desde primeiro de abril. Não sei se é a "inspiração" que se foi, ou se é muita ocupação na minha mente, ou se eu ando estudando demais e isso obstrui a mente para outras coisas. Vai ver é um pouco de tudo que elenquei.

Enfim, fico no aguardo de uma idéia boa para postar, que não seja copiar o que eu postei/fiz há muito tempo. Enquanto isso, estou postando no Síndrome de Alt-tab, em razão de uma matéria de Faculdade - blog vale nota, acredita?

O Síndrome de Alt-tab é destinado à postagem de "notícias" da música alternativa. O que é ridículo, primeiro porque não é agradável reproduzir as notícias de portais especializados em música/cultura e segundo porque o conceito de "alternativo" é deveras abstrato e relativo (a depender do conceito, até metal é alternativo). Enfim, mesmo com esses percalços, vou levando o trabalho adiante. Acompanhe, caso queira (Ih, é o terceiro link... "estou implorando por visitas?" ....).

sábado, 3 de maio de 2008

Reminiscências

Lendo e tentando acreditar no que escrevo.

"(...) Não me lembro exatamente de quando me dei conta de que sei amar. As vezes desconfio de que o amor é somente uma invenção, mas quando sinto, vejo que essa desconfiança é simplesmente idiota." (janeiro, 2007)

"(...) Escrevo clichês como quem diz grandes novidades. Mas procuro ser visceral, coerente e verdadeiro, embora isso nem se efetue muito.
O fio das horas se esvai. O tempo é fugaz.
Mas a música é meu maior abrigo. Depois dos intermináveis abraços..." (abril, 2007)

"(...) A mulher que Pedro idealizava (...) era como uma canção louca, afinando e desafinando, mudando de tom e de ritmo bruscamente, afigurando-se e desaparecendo. Ao passo que conhecia Luísa, ela o conquistava, tornando palpável um ideal abstrato, mas escorria de seus braços como água. (...) Era como se fosse destinado a amá-la, porém não acreditava em destino. Gostava de encarar a vida como fruto de felizes e infelizes acasos. (...) Do futuro, nada sabia. Gostava da idéia de haver um amplo horizonte de possibilidades, mas odiava o caráter brusco e mutável dos acontecimentos." (março, 2008)

"(...) [tudo] termina sem mais nem menos para uma continuação frustrante. (...) a vida de Pedro (...) drasticamente muda para pior e tudo tende ao caos. Como uma entropia maldita, maldita física, maldita vida." (..., 2008)

"Odio el amor", Rubin

Odio el amor
La primavera y el sol
La luna y todo lo demás

Odio el calor
Y las canciones de Paul
Ir de la mano junto al mar

Pero si estás
No tengo tiempo de más
Para perder en soledad

No es tan difícil dejarme llevar
Pero me pierdo si no estás

Odio el ayer
Y lo que vino después
Que no me deja respirar

Odio a mis ex
Y a cada amor de mis ex
Ir a tu casa y esperar

Pero si estás
Todo parece cambiar
Y el viento deja de soplar.
No es tan difícil dejarme llevar
Pero me pierdo si no estás.

Ella pasó, vino y se fue
¿qué debo hacer
Para que quiera volver?

Pero si estás
No tengo tiempo de más

Para perder en soledad
No es tan difícil dejarme llevar
Pero me pierdo si no estás
(siempre) me pierdo si no estás"


"Roubado" daqui. Ouça (link também roubado).

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Chuva metafórica

Chove lá fora. Aqui dentro também. É tosco fazer isso, mas sempre vou associar essa chuva a uma tristeza velada e inútil. Nessas horas eu ponho uma música triste e sou essa música. Nessas horas o meu eu pede por uma estabilização, pede que pare de chover, mas tudo chove mais ainda, o céu descarrega sua fúria em ventos prodigiosos e eu fico aturdido.

Não sei de onde vem tudo isso e como, justo quando tudo começa a ir mal para mim, o tempo fecha juntamente comigo. O que era um horizonte de possibilidades e um céu azul deságua em dor e desalento. Deveria ter adivinhado que aquele azul não combina comigo, se eu vivo a noite sem lua, com apenas uma estrela, só uma.

Existir dessa forma dói, mas é uma dorzinha que, em pouco tempo, torna-se agradável. Você não consegue viver sem ela. Você simplesmente acaba não se enganando tanto com a vida.

(Texto escrito em 01/04/2008. Não chove lá fora, não mais. Aqui dentro já não sei)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Do alter ego José Dias

Seria uma impressão passageira ou palavras como "amor" realmente não fazem parte do vocabulário da minha vida?

Eu não me refiro ao tipo desgraçado de amor, aquele que permanece na mente e no corpo como um peso, soando como uma música mal tocada, uma voz desafinada. Falo do amor concretizado, vivido lado a lado.

"Inadequação. I-n-a-d-e-q-u-a-ç-ã-o". Se eu tivesse treze anos, pensaria nisso. É estranho, mas me sinto um pouco como naquela época. Sua recusa sutil se deve a alguma coisa... Então me pergunto: por que você não pode me amar? Existe algum problema comigo?

Sou como você, Annie, que nunca namorou quem queria. E só se relacionou com pessoas extremamente desinteressantes. Ah, sim, eu nem me apresentei. Desculpe. Meu nome é José e ninguém me chama de Zé. Desde pequeno eu nunca tive cara de Zé, já me disseram isso. Parece que sou sempre sério demais.

Na minha infância, todos tinham apelidos inusitados - Lá, Fifa, Dia, Bu e por aí vai. Nunca tive direito a um. É estúpido. Ana, não tente me julgar. Sei que falo besteiras. Se mando essa carta a você, é porque preciso disso. Preciso de alguém com quem possa desaguar... Formar uma poça junto a alguém, sabe? Sempre pensei muito nisso... nunca foi possível. A tal água não sai de mim, nem mesmo por lágrimas. Não choro desde os 10 anos, pois meu choro nunca comoveu ninguém. Nem irá.

Você é a garota mais interessante que já vi na vida. Pequenina, boca vermelha, olhos brilhantes - encantadora. Não, brinco. Eu sei que você não é assim. Você não tem forma. Você é um espelho disforme, a banda perdida da laranja que nunca existiu. A cada vez que tento te alcançar vejo como sou idiota. Afinal, não amo você. Amo a idéia que eu tenho de você, que nada tem a ver com você. O que mais assusta, enfim, é que você saiba disso.

Banda de laranja. Parece que a "grande faca do destino" fez um trabalho tão ruim... como pôde estraçalhar as metades de tal forma que nunca se encaixam? Quando se montam, finalmente, quando parecem ter curado todas as cicatrizes existenciais, a outra metade está perdida, em pedaços pequenos, corredia. E então a metade se desmonta. Eis a vida... nunca poderemos nos encontrar, querida Annie.

Mas mesmo que você tranfigure suas formas, que de laranja passe a ser limão, azeda e amarga, será sempre você que estará nos meus sonhos. Para mim, você será sempre adocicada, principalmente porque nunca provei você. Quem me dera fosses realmente amarga. Assim nos encaixaríamos. Eu te arrancaria desse pedestal que criei para você. Eu aprenderia a tocar sua melodia bela, eu... seria Zé e não José, e não esse rapaz sério e melancólico, cólico, cólico. Eu, Zé. Você, minha Ná - sim, eu já conseguiria te chamar de Ná, por mais tosco que você possa achar esse apelido.

Não quero ser completado, não acho que você faria isso por mim. Não quero ser feliz, já que isso não existe. Eu só quero que você exista, de fato. Eu só quero sentir que faz sentido estar ao seu lado a cada dia, sem saber como você é... Ver sua figura no espelho e, ao apurar os olhos, não ver mais nada. Não há metade. Não há laranja. Mas há você. Ah, você...


José Dias, presidente da associação das metades de laranja desencontradas, das panelas sem tampa e das metáforas ridículas.

terça-feira, 25 de março de 2008

Cenas dos últimos dias

I


"Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro
E aguava o bom do amor"



II


Se a vida é esse moinho louco e os laços entre as pessoas podem se desfazer de uma hora para outra, é preciso que se tenha uma vontade grande de fixá-los ou fazê-los ir adiante e além. E isso eu tenho, espero que você também.



III


Éramos eu e um vaso azul-turquesa. Ele olhava para mim, fulminava-me com sua falta de olhos, e sua total falta de graça. Minhas vistas turvavam-se. Sentei-me no chão enquanto olhava as estrelas no ar, tentava tocá-las e me sentia triste. Vaso, eu, vaso, eu, vaso. Vaso. E algo que escorria sem precedentes, até que toda a dor fosse embora. Então, levantei-me e pedi para esquecer o que houve. Mas não se esquece o que se quer.



IV


"Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços apertado assim
Colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim (...)"



V


"Você a encheu de palavras e palavras que, no fim, não possuem qualquer sentido para ela. Você não deu um sentido às palavras ao encontrá-la, você é um cara esquisito demais. Estou certo de que o pior te espera. (...) Você é, sobretudo, inadequado. E vai sofrer tanto por isso. Porque é um idiota (...), um burro mesmo. E quem souber da sua história e do que sente, te achará patético, Pedro. Patético."



VI


"Nothing's gonna change my world
Nothing's gonna change my world (...)"

terça-feira, 11 de março de 2008

Sobre Pulp

Different Class (1995) é nostálgico e pode provocar um pesar pelo rumo que tomam as vidas, uma dor pela drástica diferença da vida atual para aquela que foi imaginada um dia. Não é uma banda que faz o tipo de música matadora, que emociona com maestria ou sensibilidade notáveis. Mas as músicas de Pulp suscitam uma saudade de um tempo que nunca existiu, uma saudade do tempo escolar, das dúvidas, do turbilhão de sentimentos vividos e da infinidade de coisas não feitas, planejadas ou não.

São músicas simples, com letras inteligentes e sensitivas, com uma guitarra pungente quase o tempo inteiro, um vocal não tão eficiente, de voz inadequada e, por isso mesmo, incrível, porque sentimos que podemos cantar as músicas e sermos nós, sermos a porcaria que somos, exibir o tosco timbre que (com algumas exceções) temos, amargar copiosamente o passado, o presente e até o futuro.

Pulp dá uma saudade dos anos noventa, uma vontade de ter sido adolescente naquela época e não nos malditos e moderninhos anos 00. Uma vontade de ter pensado em como seria o ano 2000.

Uma vontade de sussurrar e criar coisas interessantes e loucas. Pulp é vida pulsante, é inexplicável. Creio que foi um grande erro a banda ter acabado.

Se depender dessa foto, é possível que ninguém concorde comigo...

sexta-feira, 7 de março de 2008

Das poesias impublicáveis

Sou um sujeito muito crítico. Auto-crítico, na verdade. Declaro impublicáveis muitos dos poemas que faço. Publicável, no fim das contas, tudo pode ser, mesmo que seja grotesco - senão as coisas toscas não existiriam para nos fazer rir.

Os poemas que produzo são sempre desejos. Tenho um apreço excessivo por aquilo que ainda não tenho. Então, se não podemos ter tudo, o que há de errado em desejar? Ou em sonhar? Dentre tudo que quero, eis meu mais forte "sonho" no momento, por mais pesado que a palavra sonho possa soar:


"Es muss sein"

Ser a tua pele
o teu suave perfume

Tatuagem
cobrir-te nua
absorver a essência tua
ser-te, enfim

Seremos um
Enovelados, um cataclisma
torvelinho irrisível
felicidade contagiante
no fim dos tempos, olha

Seremos sim
com a tua pele na minha
face a face,
encontro de águas
tu, doce,
eu, salgado

Sou-te, assim
E tu me és
e por esse viés
Tu olhas-te em mim

E vês que és bela
Mas não és boneca
Menina, não somos de moldes
somos o nosso padrão

Ser o surreal
Sentir tua minha perna
Afogar-me em teus quase tão meus braços

Não pertences a mim
Mas sim, sou teu
mesmo que não saibas



segunda-feira, 3 de março de 2008

Primeira aula de Teorias do Jornalismo

- E aí, o que você lê assim que pega um jornal?
- O que mais me interessar, depende da hora...
- Como assim depende? Ao meio-dia você lê Culinária?

Ha-ha-ha-ha.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Keep walking

(...) People pretend that they don't know that a life depends on the other lives. We pretend so many things... as we dream with things we can't reach - "impossible things", some people say. "Impossible is nothing", says Johnnie Walker. "Keep Walking" is not too difficult. But I don't believe this fuckin' trademark, Johnnie Walker. What do they know about life? They just know about selling drugs to people who, in fact, don't need them, but pretend that need. In this time, I wonder if you're thinking: "what do you know about life, fucking bastard?"

Well, my brother, I probably know less than many people but more than you could imagine. You don't know me. We probably never will meet. Just like 6,5 billion in this world. It's nice, you know. I can write to people that will never see my face. Never.

But what if people that I know read this? I think I'll get embarrassed. Damn this. I don't care. 'Cause people just think they know me, but they don't feel what I feel, they don't live my life! So, they should shut up.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Janela da alma

Não sei o que é isso que se passa em mim. Como uma angústia desatinada, prendendo-se, aumentando o peso da alma. Quem disse que o espírito é leve? Quando pesam todos os dissabores inúteis. Ou fúteis - não se pode julgar. Somos todos juízes e réus. Uns mais, outros menos.

Mas não quero mais esses olhos todos sobre mim. Desaparecer: coisa impossível. Nem se eu fechasse os meus olhos julgadores, meus maldosos olhos.

Quando ouço a música, são retiradas incrivelmente muitos quilos da massa de gordura da alma. Ah, a minha sedentária alma... Que cor tens, de verdade? Que brilho? Que tamanho?

Tu pareces desbotada, de modo que não te reconheço. Sempre foste taciturna, sempre gostaste de fazer caraminholas, de andar por vielas sem saída. Mas nunca consegui ver exatamente quanto medes tu... pareces pequena, ó poeta. Observo-te como alguém nas núvens, em algum tipo de estado surreal. A chama minúscula que tu preservas... por que não a usas?

Para que serves tu, se não te usas? Se não aproveita a tua estadia, tua travessia por este mundo inconstante. És tu a menos esperta? Eu queria afogar-te agora, nesse instante. Quem sabe assim tu percebes que a vida não nos foi dada à toa. Mas só consigo afogar-te em música.

Música: é a tua linguagem? Código celeste redentor?

Como saber? Mas vejo que ela te anima, como te aquece, por mais que te machuque. Verdades não doem. O código mandas-te viver. O imperativo maior de todos: ser-te por inteiro, revelar-te, desatar-se em várias canções. Ser uma canção. Um mergulho em puro ar, um acordar sublime, um sol a iluminar-te. O que fazes tu? Estás aí, apática. Diria até que pareces amarelada, se meus olhos enxergassem tua cor. Mas toda alma tem uma cor própria, vais encontrar a tua. Pode ser um vermelho estridente ou um roxo... Não sei, mas até tu sabes que não podes ser amarela. Nada contra orientais, por bem dizer: a cor da pele nada tem a ver com a cor da alma.

Alguém diria-te que és do tamanho dos teus sonhos. Mas que infâmia. Como se mede um sonho, se é alto ou baixo, grande ou pequeno? És somente mar, imensidão ao horizonte. Só tu não vês, já que estás cega... Ou não criaste olhos? Os olhos da alma seriam os que enxergam mais, de uma forma inefável, tu já deverias entender isso. És uma porta, uma espécie de burra.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Voltando a divagar...

Eu não tenho inteligência literária. Não tenho mesmo. Talvez por isso tenha lido tanto ultimamente. Talvez esse gosto por escrever seja algo que inventei para mim, como uma brincadeira. Uma espécie de experimento adolescente, "até onde eu iria?" - era o que eu pensava. Assim, tentava escrever com a alma, com o coração. Mas quem sabe não seja esse o maior pecado dos meus textos: a falta de uma essência sincera neles. É como se usasse palavras incomuns para disfarçar o meu vazio (tento não fazer isso agora). O abismo que há em mim ou minha falta de talento definitiva. Constato isso quando leio os grandes mestres. Nunca escreverei como Julio Cortázar ou Milan Kundera. Não sei se isso é mesmo um talento inato, mas pareço não ter nascido com "a manha" de escrever. Tudo o que faço soa como extremamente pueril. Usar a palavra "pueril", afinal, só demonstra o quão culto eu quero aparentar...

Para ser franco, não sei se tenho consciência de que quero passar essa imagem, ou se quero mesmo inconscientemente... Eu não sei se realmente forço as palavras difíceis a aparecerem em meus textos. Às vezes elas aparecem naturalmente, disso eu tenho certeza. Mas acho que não são todas as horas... tento substituir palavras, eu acho. E enquanto penso sempre saem vários "eu acho". Deve ser por isso que passo assim pela vida, tão indeciso. Eu sou sempre "eu acho".

Às vezes adoro simplesmente não saber. Em outras horas detesto. Como odeio ter a ciência de que não escrevo lá muito bem. Mas por que eu teria que fazer isso bem? Essa história de escrever começou como um passatempo. Digamos que não tenha sido uma coisa natural, um intuito repentino, ou coisa assim. Simplesmente eu via as pessoas escreverem e pensava: Por que eu não podia fazer isso, também? Eu devia ter uns catorze anos. Pensava ser um garoto brilhante na época - não tinha consciência de que pensava isso, é claro. Enfim, nesse meio tempo - tenho quase dezoito anos agora - acredito que amadureci bastante. O que não é grande coisa... Mas é a vida.

Leio as coisas que escrevia naquela época e vejo refletido o modo como eu pensava através das tolices que punha no papel. Aliás, punha no computador, mais especificamente no meu blog da época. Nunca fui tão fã de papel. É por causa da praticidade que o computador fornece, já que escrevo devagar e digito rápido, quase no ritmo dos pensamentos. Acabo de perceber que meu problema literário (sobre escrever mal e essas coisas) é apenas reflexo da precaridade dos meus pensamentos. Não sou nem um pouco visionário. Não penso nada demais e, na verdade, me surpreendo com coisas que leio e que outras pessoas qualificariam como bobas... Me apaixono por metáforas que outros acham pobres... Posso estar sendo dramático, mas preciso repensar minhas idéias.

O que eu realmente preciso é continuar escrevendo bobeiras sobre mim e apenas para mim mesmo. É delicioso, se é que se pode dizer isso. Quero viver mais e melhor. Quero experimentar, quero me encantar com a beleza das pessoas e da vida, em certos momentos. Quero não só quebrar a cara com as mulheres... Quero me sentir alguém interessante... E não passar pela vida indiferente, um "tanto-faz" na vida de (quase) todos.

Quero ser mais musical. Ser uma canção triste e bela, com aquela felicidade inesperada no fim. Não sei se já ouvi uma canção assim, preciso realmente checar isso. Se pudesse fazer uma canção nesse momento - se tivesse jeito para música, instrumentos, rimas, ritmos, ou canto... - faria assim... Teria um violão chorando, um homem singrando o ar com sua voz, rompendo a insensatez dos meus ouvidos e fazendo meu coração acelerar, ou quem sabe uma mulher a cantar suavemente, como se sussurrasse em meu ouvido declarações de amor, poesias. Estou numa espécie de sonho musical, em transe confessional, numa tarde turva de tantos desejos. Mas eu vivo a noite. A noite triste de ruídos das profundezas, a noite que não tem a alegria sonhada, que queria ao menos emprestar de outros seres, os felizes.

Não sei o porquê, mas não consigo estar bem na maior parte do tempo e viver sem reclamar e perder horas com coisas que não importam. Me sinto uma espécie de trava - já disse isso outra vez... Nunca me prolonguei sobre o sentido de ser uma trava, mas talvez a metáfora seja suficientemente óbvia. Não tanto para mim, que sou como Maga. A cada minuto, enquanto leio "O Jogo da Amarelinha", me identifico com a ignorância da personagem. Ela é verdadeiramente encantadora. É como eu disse a uma amiga, eu devo me encantar fácil demais. Não importa, sei que o mundo desordenado de Maga é fascinante. Já Horácio é tão repugnante às vezes e tão admiravelmente humano e inteligente em outras, que fico oscilando sobre o que penso em relação a ele.

Não importa. Sei que me sinto uma espécie de imbecil lendo a obra-prima de Cortázar. Talvez a maioria das pessoas que leiam esse livro também se sintam um pouco assim. Deve ser por isso que o autor criou Maga, que, entre tantos amigos cultíssimos do Clube da Serpente, sente-se burra - na verdade, fazem que ela se sinta assim, pela estupidez com que respondem suas indagações sobre coisas que, para eles, são óbvias. Maga, a cada sensação de ignorância e grosseria que recebe, tem uma "sensação violeta". É uma boa descrição da sensação... é genial.

É aí que eu me sinto tão incapaz de escrever decentemente. Não tenho um pingo de poesia. Pareço não saber ser humano, nem saber viver... Não tenho "a manha"... "Manha"... fico pensando se isso é só coisa da minha cabeça, se alguém realmente "nasce com a manha" ou se isso se cria, se adquire durante a vida. Por que será que eu, então, não adquiri?

Permaneço nessa angústia. Na cadência angustiante do ronco de meu pai e do falatório televisivo, fico perdido nesses escritos que parecem transbordar amargura. Eu não devia ser tão amargo, tão pessimista com relação à minha existência.

E se falo essas coisas sobre mim, não há outro motivo senão a existência de múltiplas realidades. Eu recuso esse egocentrismo de achar que o real é algo realmente palpável, é o mesmo para todos. Não é. O que torna as coisas reais é a forma como as vemos. Essa forma faz toda a diferença. Tanto há múltiplas realidades que boa parte do que disse aqui já foi refutado por pessoas que conheço. Que importa, não é?

sábado, 26 de janeiro de 2008

"Coisas de amor" ou "Ah, de novo, não!"

Certas horas eu me odeio por escrever essas coisas... coisas de amor. Quando tudo que queria era ler esse tipo de texto, só que feito para mim. Não é fácil... Uma vez recebi um poema muito bonito, confesso que me surpreendeu... Foi incrível. Mesmo que eu não seja o maior fã dessa forma de se expressar, muito menos de poesia amadora, é muito bom receber demonstrações de afeto... poéticas. Eu fiz essa, que nunca foi entregue (nem será), em dezembro passado.

Seus olhos miúdos, vívidos, com brilho de criança com doce nas mãos.
Boca pequena e avermelhada. Uma estrela subindo ao espaço, intocável. Irretorquível.

Inefável sensatez. Não me atraia mais, é o que lhe peço.

Não me procure. Ou me procure... já não sei.

Já não me importa o que é melhor para mim... é incontrolável e insustentável a situação.

Ah, o amor... para os que falam essa frase com aquele tom imbecil, a morte.

Clichês pueris... sutilezas juvenis. Ah, a dor... e o drama.

Irracional e muito humano."


Eu sei: só tenho escrito besteiras de amor. Tentarei outro tema, se conseguir... ou não.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Um ode ao acaso


Cravei meus dentes no rio de suas lágrimas... tão cálida era sua face, tanto sofrimento eu senti...

E de todo corpo sofri, como uma avalanche de lamurias no deserto, sentindo cada gota expandir-se em mim, tomando parte de minha alma pálida de dor.

Doía forte. Segurei a respiração, sentindo o arfar de seu peito em mim, nos meus pensamentos... por que ela não pode me amar?

Isso está incluso nas coisas ininteligíveis. Na inconsciência que Pessoa apregoa, por meio de ser alter-ego Bernardo Soares:

A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia."


Nunca aprendi a ser amado por quem eu quero, parece que isso é um tipo de dom especial, ou coisa do acaso. Ah, culpemos o acaso de tudo, até dos nossos excessos... O problema do amor é que ele deveria se passar sempre entre duas pessoas, e não em uma e outra não... o problema é que, como dizem (não se enganem, não sou muito chegado a repetir o senso comum, mas... abro exceções), cada cabeça é um mundo. Infelizmente...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Real love, Beatles


All my little plans and schemes,
Lost like some forgotten dreams.
Seems that all I really was doing
Was waiting for you
.

Just like little girls and boys
Playing with their little toys,
Seems like all they really were doing
Was waiting for love.

Don't need to be alone.
No need to be alone.

It's real love.
It's real.
Yes, it's real love.
It's real.

From this moment on I know
Exactly where my life will go.
Seems that all I really was doing
Was waiting for love
.

Don't need to be afraid.
No need to be afraid.

It's real love.
It's real.
Yes, it's real love.
It's real.

Thought I'd been in love before,
But in my heart I wanted more.
Seems like all I really was doing
Was waiting for you
.

Don't need to be alone.
Don't need to be alone.

It's real love.
It's real.
It's real love.
It's real.
Yes, it's real love.
It's real.
It's real love.
It's real."

A versão da música por Regina Spektor é tão linda quanto a dos Beatles. Vejam.

Já perceberam que a maioria das músicas em inglês que tem uma poesia incrível ficam bregas se traduzidas? Perdem a emoção por completo... É o que ocorre com essa (veja tradução). Ainda bem que já sei um pouco da língua a ponto de não depender de traduções toscas como no passado dependia.